Em conversas privadas, os amigos russos volta e meia manifestam ceticismo, sobre as relações EUA-Rússia; para eles, a secretária Hillary Clinton representou sempre mais o governo de Clinton, que o de Obama. Bill Clinton sempre procurou, incansavelmente, arrancar vantagens de uma Rússia fraca, que lutava para sair das ruínas da União Soviética; e, nisso, sempre foi impiedoso.
Políticos chave, como Strobe Talbott e sua bagagem de pensamento da guerra-fria, jamais conseguiu ocultar o tom de triunfalismo; para eles a URSS foi chutada como cachorro morto, para a lata do lixo da história. Hillary Clinton, nessa linha, jamais manifestou qualquer empatia com a Rússia, e, em vários sentidos, retomou a linha do governo Bill Clinton. Gente como Talbott com certeza trabalhou com ela, nos bastidores.
Mas Obama mais de uma vez deu sinais de que tinha outra percepção sobre a Rússia e os laços que ligam aquele país e os EUA. De fato, voltamos sempre à mesma questão: Obama terá agenda de transformação para a política exterior dos EUA, para seu segundo mandato? As indicações para os postos chaves do novo gabinete podem dar algumas pistas.
Por isso a indicação do Senador John Kerry ao posto de secretário de Estado ganha especial interesse. A ‘popularidade’ de Kerry entre os congressistas americanos é vantagem para Obama, se estiver realmente buscando inovar na política exterior. Isso, para começar.
Em segundo lugar, Kerry é figura bem conhecida na comunidade internacional. Em terceiro, não é jejuno, no mundo da diplomacia: já presidiu a comissão de relações exteriores do Senado, e já cumpriu funções diplomáticas, como quando foi várias vezes encarregado de missões para ‘apagar incêndios’ em Kabul e Islamabad, fosse frente ao temperamental Hamid Karzai ou os recalcitrantes generais paquistaneses.
Mas o aspecto mais importante da indicação de Kerry é que, agora, Obama afinal cobre a ravina que, durante o mandato de Hillary Clinto, separava a Casa Branca e o Departamento de Estado. Kerry é homem que joga para a equipe (aprendeu no Exército); e Clinton, presa de insaciadas ambições presidenciais, trabalhou muito, também, para ela mesma, ao longo dos últimos quatro anos. Obama lhe fará alguns elogios, mas não lamentará a partida de Clinton, com quem não teve relacionamento fácil.
E que tipo de secretário de Esstado será Kerry? Claro: é homem cauteloso, do mesmo figurino de Obama. Como explicou em detalhe, em artigo revelador na revista Foreign Policy em setembro (‘R’ for ‘Reckless’), não é homem de deixar ponta sem nó.
Vê, como Obama, que a questão da mudança climática deve ser uma das prioridades da diplomacia dos EUA. Sem dúvida, é dos senadores mais ‘pró-Israel”. Obama, sim, está sinalizando para os israelenses que seu governo continuará a garantir forte apoio à centralidade da parceria EUA-Israel, no centro da estratégia dos EUA para o Oriente Médio.
Quanto à candente questão iraniana, Kerry tem posição nuançada – oposição veemente a qualquer programa de armas; e, simultaneamente, aversão a qualquer provocação contra os iranianos. Vê os líderes iranianos como seres racionais, com os quais os EUA podem negociar; e considera a opção militar como muito remota, a última a ser considerada.
Kerry tem visão ainda mais nuançada em relação ao relacionamento sino-americano – com inúmeros interesses partilhados e espaço para cooperação e laços comerciais de longo prazo. Interessante: votou contra vincular o comércio com a China e a atuação dos chineses no plano do respeito aos direitos humanos.
Para Kerry, o melhor que os EUA têm a fazer, ante o desafio da ascensão chinesa, é promover o renascimento econômico nos EUA, sem cnsiderar a opção do confronto militar. Kerry foi citado, ao dizer que “economia não é guerra. Nós [EUA e China] podemos avançar muito mais do que já avançamos até agora.”
Em resumo, como David Ignatius escreveu recentemente no Washington Post, temos em Kerry alguém que “sabe apreciar a importância da diplomacia em calma, sobretudo nos tempos que correm.”
Será emissário no qual Obama poderá confiar para construir uma transição política na Síria, explorando o desmonte do impasse histórico entre EUA e Irã, pondo fim à guerra afegã (http://articles.latimes.com/print/2012/dec/11/world/la-fg-us-afghan-20121212) e cimentando a confiança mútua entre os EUA e o Paquistão (prerrequisito crucial, para o acordo afegão.)
Mas não se deve perder de vista que Obama é homem intrigante e complexo, além de político esperto. O alcance total de suas motivações para indicar Kerry só poderá ser avaliado depois que Obama divulgar o nome do secretário da Defesa. Se se confirmar a indicação do senador Chuck Hagel (citado hoje como o preferido na disputa pelo posto), Obama estará enviando mensagem muito significativa, se vier a escolher esses nomes para os dois postos mais importantes do seu segundo mandato, no que tenha a ver com política exterior.
O que Hagel significa? Basta dizer que se opõe com unhas e dentes a qualquer tipo de ataque militar contra o Irã; que quer os soldados norte-americanos fora do Afeganistão JÁ!; que defende cortes drásticos nos gastos do Pentágono (apesar da Síria, do Irã, da Coreia do Norte, de ‘pivoteamento’ para a Ásia e tudo; que é pacifista, contra todas as guerras e sempre (http://prestowitz.foreignpolicy.com/posts/2012/12/18/hagel_for_secretary_of_defense ) (como Kerry, também é veterano da guerra do Vietnã); e quer acomodar a emergência de novas potências, como China, Índia e Brasil, com os EUA assumindo a liderança para constituir uma nova ordem mundial baseada na reforma das organizações internacionais.
Em síntese, Hagel simboliza a audácia da esperança que, noutro momento, esteve associada ao próprio Obama (http://www.dailystar.com.lb/Opinion/Columnist/2012/Dec-21/199345-the-debate-over-hagels-selection-misses-the-point.ashx#axzz2FmR9eK00).