Conceitualmente, é um evento ‘Track II’ [trilha II]
[2], organizado pela Fundação para Pesquisa Estratégica,
think tank com sede em Paris, onde os afegãos “conversarão livremente, portas fechadas”. Os Talibãs dizem que seus delegados só conversarão, não negociarão, com outros grupos afegãos, e a Aliança do Norte diz que estão indo a Paris só para ouvir, não para negociar. O ministro francês de Relações Exteriores Laurent Fabius deu a melhor pista a seguir, ao dizer que os grupos afegãos manterão discussões, não negociações.
[3]
Sofismices à parte, a realidade política é que o gelo começa a ser quebrado no diálogo intra-afegão, o que é prerrequisito vital para qualquer acordo duradouro.

Assim também, segundo o jornal paquistanês
Daily Times, Islamabad concordou em libertar da detenção o ex vice-chefe Talibã, Mullah Abdul Ghani Baradar. Obviamente, Baradar será figura chave nas negociações intra-afegãs.
Washington, é claro, está excitadíssima, com esse vetor crucial que se vai constituindo no que parecia paisagem plena de incertezas, já quase sem qualquer esperança. O porta-voz do Departamento de Estado falou de “conversas afegãs-afegãs” como “o melhor modo de andar adiante (...) Vamos ver a que isso levará.”
De fato, é um toma-lá-dá-cá.
[4] Um governo norte-americano grato está pagando mais de $688 milhões ao Paquistão, e, dessa vez, os Congressistas no Capitólio que cuspiram veneno ao avaliar a liderança militar em Rawalpindi, não estão refugando. (O que provavelmente explica o
aplomb do trote do ministro do Interior do Paquistão Rehman Malik
[5] em Nova Delhi.)
O aceno de concordância no Conselho de Segurança da ONU
[6] implica que, certamente, as grandes potências – Rússia e China, sobretudo – estão no mesmo barco. A reunião em Paris acontecerá entre vinte participantes, entre os quais os líderes tadjiques Ahmed Zia Massoud e Yunus Qanooni, o líder hazara xiita Mohammed Mohaqiq e o líder uzbeque Faizullah Zaki – todos eles “inimigos” implacáveis do Talibã –, que a Rússia apoiou nos anos 1990s.
É prova bem sólida de que a Aliança do Norte está querendo conversar seriamente com os Talibã. Não surpreendentemente, o ministro russo das Relações Exteriores Sergey Lavrov, viajou às pressas para Tashkent
[7] para visita não agendada. O papel do Uzbequistão torna-se crucial no período que virá.
Os Talibã serão representados por Maulvi Shahabuddin Dilawar, diplomata experiente, que foi embaixado no Paquistão e na Arábia Saudita nos anos 1990s e esteve envolvido nas fracassadas conversações com os EUA no Qatar, no ano passado. A presença de Dilawar sugere fortemente, como escreveu o jornal
al-Arabiya, que os Talibã aproximam-se cautelosamente da mesa da paz.
[8]