TLAXCALA تلاكسكالا Τλαξκάλα Тлакскала la red internacional de traductores por la diversidad lingüística le réseau international des traducteurs pour la diversité linguistique the international network of translators for linguistic diversity الشبكة العالمية للمترجمين من اجل التنويع اللغوي das internationale Übersetzernetzwerk für sprachliche Vielfalt a rede internacional de tradutores pela diversidade linguística la rete internazionale di traduttori per la diversità linguistica la xarxa internacional dels traductors per a la diversitat lingüística översättarnas internationella nätverk för språklig mångfald شبکه بین المللی مترجمین خواهان حفظ تنوع گویش το διεθνής δίκτυο των μεταφραστών για τη γλωσσική ποικιλία международная сеть переводчиков языкового разнообразия Aẓeḍḍa n yemsuqqlen i lmend n uṭṭuqqet n yilsawen dilsel çeşitlilik için uluslararası çevirmen ağı la internacia reto de tradukistoj por la lingva diverso

 22/05/2013 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 CULTURE & COMMUNICATION 
CULTURE & COMMUNICATION / Radiografia-desmonte do Nobel de
Date of publication at Tlaxcala: 17/10/2012
Original: Deconstructing Mo Yan’s Nobel

Radiografia-desmonte do Nobel de

MK Bhadrakumar

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Vudu

 

  “O que estamos fazendo - nem nós mesmos sabemos
mas, a cada momento, mais isso nos assusta...
Como quem saiu da prisão,
sabemos algo um do outro,
algo terrível. Estamos num círculo infernal.
Mas talvez isto não sejamos nós."

“Através dos Espelhos”, in
Anna Akhmátova - Poesia: 1912-1964, Porto Alegre, Ed. L&PM, 1991
trad. port. do Brasil, de Lauro Machado Coelho*

 

O Prêmio Nobel de Literatura ter sido dado ao romancista chinês Mo Yan provocará mais de um olhar de incômodo ou de arrogância[1]. Não porque Mo não mereça a honraria, mas porque o prêmio tem história sempre muito controvertida.

Em 2012, as controvérsias distribuem-se em três categorias – se o premiado realmente merece tão excepcional honra; por que alguns outros autores foram mais uma vez deixados de lado; e, terceira categoria, claro, a nacionalidade do premiado.

A primeira categoria induz a crer que nada se sabe nem se pode saber (por algum tempo) – até que a comissão do Nobel desencave outro nome excitante.
A segunda categoria de controvérsias é causa de incômodo – Anna Akhmatova, Yevgeny Yevtushenkov e Andrey Voznesensky foram deixados de lado, e Joseph Brodsky “ganhou”. (Vladimir Mayakovsky suicidou-se aos 37 anos,[2] antes de que o Nobel sequer soubesse de sua existência).

A terceira categoria de controvérsias obriga a considerar uma verdadeira pequena galeria de souvenirs excêntricos do tempo da Guerra Fria.

E onde entra Mo?

Sinceramente, só li sobre ele e não o conheço diretamente; parece ser romancista de vanguarda como Gao Xingjian (2000) cujo A Montanha da Alma [São Paulo: Alfaguara/Objetiva] li duas vezes (e talvez volte a ler), embora esteja longe do romancista emigrado que foi Gao (rejeitado pelo establishment  chinês, optou pelo exílio). Todos os comentários concordam
[3] em que Mo é autor valiosíssimo. Gao é autor de experimentos com a escritura de diferentes modalidades narrativas, e Mo, ao que parece, buscou reconectar-se à cultura e as tradições chinesas.

Fã apaixonado do realismo mágico na ficção, mal posso esperar para ler Mo.
 

Mas... É a nacionalidade, estúpido!

O que mais se discute, no caso de Mo, é ele ser CHINÊS e, ainda mais inacreditável e surpreendente, que Mo integra “a sociedade chinesa mainstream[4], como escreve ardilosamente o Global Times chinês. O que nos leva à questão seguinte: haverá aí alguma mensagem política?

Ah, sim! A política jamais se afasta do Prêmio Nobel – como quando premiaram Pasternak (ainda em vida de [Anna] Akhmatova
[5]).

Em tom de incontrolável euforia, o Global Times chinês compara 2012 e 1930, quando Sinclair Lewis recebeu o Nobel — como se o Nobel estivesse reconhecendo o aparecimento da China no cenário global hoje; assim como teria reconhecido o aparecimento dos EUA no cenário global, como grande potência, há 82 anos.

Mikhail SholokhovEm minha opinião, a coisa aí está mais para Mikhail Sholokhov 
[6] (1965), tudo outra vez. Aqueles tempos foram tão tumultuosos quanto os tempos chineses, hoje.

O “Degelo de Krushev”
[7] arquitetou e promoveu transformação irreversível na economia, na política e na sociedade soviéticas. Autores libertos, desmesurados, nas artes, literatura, música; atletas soviéticos conquistando medalhas olímpicas às pencas; a muito simbólica retirada da múmia de Josef Stalin de onde estivera até então, no Mausoléu de Lênin; a URSS abrindo-se para a “comunidade internacional”; teorias da coexistência pacífica; consumismo; novas cozinhas familiares privadas, não mais coletivas. (Evidentemente, todos esses eventos enfraqueceram muito, dali em diante, o Partido Comunista Soviético.)

E então sobreveio a demissão de Khrushchev, em 1964. Um ano depois, havia ainda grandes perguntas no ar, sem respostas, sobre para que lado sopraria o vento, que estrada a União Soviética tomaria. O julgamento Sinyavsky-Daniel
[8] com seus traços de ideologia autoritária que lutava para se reimplantar, aconteceu em 1965. Nesse momento, precisamente, Sholokhov foi escolhido para receber o Nobel.

Seu romance mais conhecido (Tikhy Don [O Don Corre Tranquilo]) é retrato pungente da luta heroica e trágica dos cossacos, pela independência da região do Don, contra os bolcheviques.

Sholokhov era melhor personagem que Mo. Era membro do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética; membro do Soviete Supremo; membro da Academia Soviética; Herói do Trabalhismo Socialista – e laureado com o Prêmio Stálin. Mas, examinado mais de perto, também era figura enigmática – arquetípico e rebelde.

Sholokhov escreveu cartas a Stálin reclamando das terríveis consequências do programa de coletivização no final dos anos 1920s e início dos 1930s. E acompanhou Khruchev em sua histórica visita aos EUA em 1959. Foi símbolo do “Degelo de Khruchev”. E denunciou Alexander Solzhenitsyn.

* Epígrafe acrescentada pelos tradutores [NTs].

[1] 12/10/2012, New York Times, http://www.nytimes.com/2012/10/12/books/nobel-literature-prize.html?_r=0

[2]http://russiapedia.rt.com/prominent-russians/literature/vladimir-mayakovsky/

[3] 12/10/2012, Guardian, UK, http://www.guardian.co.uk/books/2012/oct/12/mo-yan-my-hero-howard-goldblatt/print 

[4]http://www.globaltimes.cn/content/737856.shtml

[5]http://www.poetryloverspage.com/poets/akhmatova/akhmatova_ind.html

[6] Sobre ele, http://pt.wikipedia.org/wiki/Mikhail_Sholokhov 

[7] Orig. Khrushchev Thaw. Período, de meados dos anos 1950s ao início dos 1960s, quando a repressão e a censura foram reduzidas na URSS e milhões de prisioneiros foram libertados dos campos de trabalhos forçados, com a política de “des-stalinização” de Nikita Khrushchev. Mais sobre o período, em http://en.wikipedia.org/wiki/Khrushchev_Thaw  [NTs].

[8] Orig. Sinyavsky-Daniel Trial. “Em setembro de 1965, autoridades soviéticas prenderam um conhecido crítico literário, Andrei Sinyavsky, e um tradutor relativamente obscuro, Yuly Daniel, e os acusaram de denegrir o sistema soviético em trabalhos publicados no exterior, sob pseudônimo. Os trabalhos em questão eram satíricos, mas de modo algum antissoviéticos; no ensaio On Socialist Realism [Sobre o realismo socialista], por exemplo Sinyavsky (ou "Abram Tertz") advogava nada mais radical que um retorno ao estilo aventuroso de Vladimir Mayakovsky. Apesar disso, depois de uma campanha furiosa de denúncias pela imprensa em janeiro de 1966, os dois foram condenados, em tribunal espetaculoso em fevereiro. Sinyavsky foi condenado a sete anos, e Daniel a cinco, em regime fechado, num campo de trabalhos forçados. 
Tudo sugere que elementos conservadores do regime Brezhnev-Kosygin, determinados a por fim aos ‘experimentos’ artísticos da era Khrushchev, criaram o ‘caso’ como sinal para alertar os artistas de que havia uma linha vermelha que não poderia ser ultrapassada; e para calar os intelectuais. Mas foi sinal ambíguo, em momento em que os conservadores absolutamente não estavam firmemente plantados no poder – e o ‘sinal’ não produziu os efeitos esperados. Sinyavsky e Daniel recusaram-se a representar os papéis a eles atribuídos e defenderam-se vigorosamente no tribunal. Houve protestos nas ruas de Moscou contra as prisões em dezembro de 1965, seguidos de uma campanha pública, que fez crescer o número de protestos e samizdat [prática pela qual indivíduos e grupos de pessoas copiavam e distribuíam clandestinamente livros e outros bens culturais que haviam sido proibidos pelo governo na União Soviética], que levaram à edição de Chronicle of Current Events [Crônica dos Eventos Atuais] em abril de 1968.
O julgamento Sinyavsky-Daniel tem sido interpretado como a faísca que galvanizou o movimento dissidente, e acabou por induzir muitos intelectuais a deixar de trabalhar dentro do sistema” [De WALLACE, JONATHAN D..
"Sinyavsky-Daniel Trial." Encyclopedia of Russian History. 2004. Encyclopedia.com em http://www.encyclopedia.com [NTs].

 




Courtesy of Tlaxcala
Source: http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2012/10/13/deconstructing-mo-yans-nobel/
Publication date of original article: 13/10/2012
URL of this page: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=8396

 

Tags:  Prêmio Nobel de LiteraturaMo YanChina
 

 
Print this page
Print this page
  Send this page
Send this page


 All Tlaxcala pages are protected under Copyleft.