NEW DELHI. Número desconcertante de escândalos de corrupção vêm sacudindo o governo chefiado pelo primeiro-ministro Manmohan Singh, na Índia. As mais recentes revelações são minúsculas, se comparadas à escala das falcatruas já denunciadas, relacionadas à indústria do carvão, de telecomunicações ou ao lixo dos Jogos da Commonwealth, mas não poderiam atingir mais fundo a ‘elite’ do establishment.
Arvind Kejriwal, ativista social, que lidera campanha pública contra a corrupção há alguns meses,
divulgou farta documentação contra o empresário Robert Vadra, intimamente ligado à “Primeira Família” da política indiana, casado com Priyanka Gandhi, filha de Sonia Gandhi, a toda-poderosa líder do governo no Congresso.
Sob seu mais recente avatar, Kejriwal resolveu entrar na política ativa e criou partido independente para concorrer às eleições. O lançamento do partido foi marcado por acusações de corrupção contra Vadra. Vadra negou tudo.
Kejriwal denunciou que Vadra esteve envolvido em negócios imobiliários manchados de favoritismo e venda de influência política. Vadra respondeu com uma declaração em que diz: “Sou empresário ético e respeitador das leis do meu país, conhecido nos meios empresariais há 21 anos. Tudo que se disse contra mim são acusações falsas, sem provas e difamatórias.”
Vadra também usou as redes sociais para responder. Numa delas, referiu-se aos partidários de Kejriwal que lutam contra a corrupção como “malucos de república de bananas” – comentário que pouco o ajudou aos olhos da hiperativa jovem geração ‘Internet’ indiana.
Nada foi provado até agora contra Vadra e, até agora, Kejriwal tem-se recusado a formalizar qualquer acusação contra o empresário; diz que as investigações serão viciadas, que o processo será manipulado como a justiça sempre é, por suas ligações com agências governamentais. Quer que se constitua comissão independente de investigação. Mas o Ministério Público já abriu inquérito na Alta Corte de Allahabad, e New Delhi foi notificada.
Kejriwal também acusou a empresa imobiliária DLF de ter vendido a Vadra várias propriedades, a preços muito abaixo do valor real, em troca de financiamentos agrários em áreas controladas pelo grupo de Sonia Gandhi, em Haryana e Delhi. A imobiliária DLF desmentiu tudo, como “amontoado de mentiras”.

Robert Vadra preparando para os combates futuros
Os ganhos rápidos e massivos, em função da rápida urbanização da Índia, vêm criando milionários instantâneos, que enriquecem com a especulação, em todo o país. O preço comparativo de terras e terrenos em áreas como Delhi, Gurgaon e Mumbai é hoje o mais alto do mundo. Também no comércio que envolve recursos naturais da Índia, enxameiam acusações contra governos, políticos, empresários e burocratas que envolvem apresentação e aprovação de projetos de lei que beneficiam algumas empresas.
Depois das acusações, o partido de Sonia Gandhi saiu a campo, apoiando fortemente Vadra e acusando Kejriwal de lançar lama sobre empresários honrados para se promover politicamente. O ministro das Finanças P Chidambaram falou em defesa de Vadra.
No passado, Sonia Gandhi sempre buscou manter-se pessoalmente e seu partido afastados das acusações de corrupção, inclusive quando seu ex-ministro de Relações Exteriores Natwar Singh e o ministro das Telecomunicações A Raja, ou Suresh, apareceram envolvidos nos escândalos, em 2010, dos Jogos da Commonwealth.
Poucos na Índia teriam acesso ao nível de apoio com que Vadra conta. Mas poucos, também, operam naquele nível de poder, influência e privilégios. Vadra não dá um passo sem pesada escolta de guardas armados, em carros e helicópteros, sinal evidente de que o governo entende que, por seu contato íntimo com a “Primeira Família” indiana, tem direito ao nível máximo de segurança pessoal. É um dos poucos que, como o presidente e o primeiro-ministro da Índia, não é revistado em aeroportos indianos.

Robert Vadra com "A Família", Sonia Gandhi, Rahul e esposa Priyanka Gandhi
Politicamente, Vadra tem-se limitado a acompanhar o cunhado, Rahul Gandhi, visto por muitos como candidato ‘natural’ do Partido ao posto de primeiro-ministro, e a esposa, Priyanka, nas suas campanhas eleitorais, mas há sinais claros de que gosta das luzes da ribalta. Em entrevista ao vivo à televisão, em março, na campanha para as eleições parlamentares distritais em Uttar Pradesh, Vadra disse que considera a possibilidade de candidatar-se algum dia, assunto que sua mulher tratou de descartar rapidamente.

Sonia Gandhi, A Patroa, por K V Gautam
A família Gandhi já enfrentou períodos difíceis no passado, como quando a família foi acusada de participação no escândalo de negócios de armas no Bósforo, nos anos 1980s, com vários políticos indianos, inclusive o então primeiro-ministro Rajiv Gandhi, acusados de receberem propinas. Com Vadra na mira de Kejriwal, o acusado precisará de defesa profissional, clínica. O povo indiano observa atento.