Em fevereiro de 1848, a população de Paris levantou-se contra a monarquia instaurada em julho de 1830 e proclamou a Segunda República. A burguesia aterrorizada apelou às tropas de África vitoriosas na conquista sangrenta da Argélia, de 1830 a 1847, quando o emir Abdelkader, chefe da insurreição argelina, rendeu-se às tropas francesas de ocupação comandadas pelo general Bugeaud, massacrador de operários parisienses em 1834.
Governador da Argélia desde 1840, Bugeaud foi convocado de volta a Paris para enfrentar a Revolução. Nomeado comandante militar de Paris, Bugeaud declara: “Terei o prazer de matar muitos dessa canalha.” O encarregado do comando operacional das tropas é o general de Saint-Arnaud, ao qual François Maspéro consagrou um livro notável, L'honneur de Saint-Arnaud [A honra de Saint-Arnaud] (éd. Seuil, coll. Points, 1997, 448 p.). Saint-Arnaud, protótipo do conquistador colonial aplicará tudo que aprendeu na conquista da Argélia – dentre outras, a tática de sufocar com fumaça os civis que se refugiavam em cavernas –, a serviço da contrarrevolução na metrópole. O homem que escrevia na Argélia “Arrebentamos, queimamos, pilhamos, incendiamos colheitas e árvores” era odiado pelo povo parisiense, que lhe jogou lama e derrubou-o do cavalo nas jornadas de fevereiro. Saint-Arnaud teria sua vingança, e seria sangrenta.

A cavalaria nas ruas de Paris em 2 de Dezembro de 1851 (autor desconhecido)
Depois do banho de sangue de junho de 1848, Louis-Napoléon Bonaparte prepara seu golpe de Estado. Nomeia Saint-Arnaud general-de-divisão, depois ministro da Guerra. Nos dias que se seguiram ao golpe de força de 2/12/1851 (o famoso 18 brumário de Luis Napoleão Bonaparte, para lembrar o título da brochura de Karl Marx) as tropas de Saint-Arnaud, que se tornara ministro do Interior, lançaram-se contra os quarteirões operários de Paris, aos gritos de “Nenhuma piedade pelos beduínos!”
40 mil Republicanos seriam presos e condenados por “comissões mistas” criadas por Saint-Arnaud e seu colega da Justiça, Abbatucci. Uma parte deles seriam banidos para as colônias penais de trabalhos forçados - os famosos "bagnes" - de Lambèze, na Argélia, e Caiena, na Guiana. Esses Republicanos, embora chamados de “beduínos”, nem por isso deixaram de ser franceses. A maioria deles, depois de deixados em Lambèze, tornaram-se colonos na Argélia francesa (os condenados a pena de banimento não podiam retornar à metrópole depois de cumprida a pena) e, na primavera de 1871, proclamaram a Comuna de Argel, ainda mais efêmera que a Comuna de Paris.
Detalhe perturbador: os “indígenas” judeus e muçulmanos eram proibidos de entrar nessa “comuna”...
Sempre alguém é ‘o árabe’ de alguém.
Ernest Dargent, Ilustração para "A História de um crime" - Quarto dia: a vitória. © Foto RMN – Bulloz