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 25/05/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / ‘Dinheiro de helicóptero’: o grande cambiador de jogo geopolítico do momento
Date of publication at Tlaxcala: 25/03/2020
Original: ‘Helicopter Money’: This is the game-changer geo-politically

‘Dinheiro de helicóptero’: o grande cambiador de jogo geopolítico do momento

Alastair Crooke

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

EUA e Reino Unido, para deter o Covid-19, adotam abordagem bem próxima de tempos de guerra, com níveis invasivos de intervenção na vida social; ao mesmo tempo esses governos – como corolário da quarentena – propõem ‘resgates’ massivos. À primeira vista, talvez até pareça sensível e adequado. Mas... calma! Querem resgatar o quê? Ora... Claro que querem resgatar os mercados financeiros; de fato, sobretudo e esses todos: a Boeing, a indústria norte-americana do petróleo de xisto, companhias aéreas, indústria do turismo e (nos EUA) todos os cidadãos, enviando a cada um/uma, pelo Correio, essa semana, um cheque de $1.000 ou de $2.000 – ou, como se discute em DC – um cheque desses por mês. Excelente! Faz de conta que é Natal.

Os mercados desabaram: aqui, $½ trilhão na ‘liquidez’, $1,5 tri, ali, lá e acolá. Uma sopa de letrinhas de facilidades para tomarem empréstimos – logo, logo, estaremos falando ‘dinheiro-realês’. A sopa de letrinhas recobre toda a extensão da liquidez coletiva disponível para os bancos. E do lado dos indivíduos? Vejamos: 210 milhões de adultos nos EUA [multiplicado por] $1,000 [multiplicado por] 18 (meses), [igual] quantidade aterradora de dinheiro – próxima de $4 trilhões, ou 18% do PIB dos EUA. Assim também o chanceler do Reino Unido Rishi Sunak pede £330 bilhões, ou 15% do PIB, para apoiar a economia, além de os cidadãos ganharem moratória de três meses no pagamento de hipotecas e adiamento no pagamento de longa lista de impostos e taxas, e o governo fazendo, claro, “o que for preciso”.

Quer dizer: como é possível? De onde surgiu essa fartura de dinheiro, aí, acessível – se nunca cansaram de dizer e dizer e repetir, logo depois da crise de 2008, que só a austeridade  [sempre foi ARROCHO, mas todos só diziam “austeridade”] nos salvaria? Ah! Bem-vindos à ‘nova ortodoxia’ (na verdade, é velha, nada tem de nova: a França tentou a mesma ideia no século 18, quando ‘imprimiu’ os Assignats). Podem chamar de ‘dinheiro de helicóptero’, ou uma dita “Moderna Teoria Monetária”: o princípio é que OK imprimir dinheiro – se os governos não tiverem outro meio para conseguir dinheiro. A questão aqui é que ‘dinheiro de helicóptero’ (dinheiro produzido do nada, unidades vazias que não refletem qualquer valor econômico subjacente) é outro paradigma. Só aparece, como ideia, se o paradigma anterior já foi descartado.

Esse é o legado de 2008. Foi basicamente uma crise bancária: imprimir dinheiro pareceu funcionar muito bem, na visão das elites. A principal razão pela qual aqueles ‘especialistas’ supuseram que imprimir dinheiro tivesse funcionado depois de 2008 foi que os Bancos Centrais conseguiram, naquele momento, reinflar as bolhas de ativos financializados.

“Mas aquilo não foi sucesso, aquilo foi fracasso” – Peter Schiff, guru financeiro, comenta. Foi fracasso porque resultou em bolhas ainda maiores, e até em dívida ainda maior – o que, precisamente, nos jogou na crise de hoje: porque estamos entrando nus nessa crise, despidos de qualquer ferramenta real para lidar com o choque de oferta.

Em 2008, todos acreditaram que a ‘impressão’ de dinheiro seria temporária: os balanços dos bancos foram remendados; e o Fed conseguiria, dali em diante, normalizar as taxas de juros, e encolher o próprio balanço. Mas... ninguém acreditará no mesmo conto, outra vez. Não. As dívidas vão subir à estratosfera – e haverá dívidas ‘eternas’.

Mas para os políticos de hoje, tudo parece perfeitamente razoável, como se tudo isso fizesse sentido, perfeitamente plausível: se o Fed inunda de dinheiro o sistema financeiro, as taxas de juros podem ficar para sempre no zero. O que haveria de ruim nisso?! Com certeza faz perfeito sentido para vendedor de imóveis feito Trump, construir com juros baixos, crédito fácil. Governos podem agora tomar empréstimos por um século, a juro zero; e os bancos podem emprestar como doidos, dado que o Fed rebaixou a exigência de reservas contra o que empresta (i.e. para ‘imprimir’ mais crédito fácil para os favorecidos).

Ainda melhor que isso, governos podem extrair dinheiro do ar (monetizando suas dívidas): pode usar esses fundos para ‘resgatar’ todas as empresas, os negócios e os cidadãos adversamente afetados pelo Covid-19, e vira herói. Bem-vindos à nova ‘Ortodoxia’.

Qual é a alternativa? Aí é que está. A visão de mundo financializada, monetarista, buscada dogmaticamente ao longo das últimas décadas, esvaziou a caixa de ferramentas, deixou lá uma única ferramenta (mais dinheiro, mais liquidez). Arrastaram o mundo para esse beco-sem-saída monetarista. Continuarão a fazer a mesmas coisas (liquidez e resgates), outra vez, outra vez, outra vez e (per Albert Einstein), sempre com esperança de obter resultado diferente e melhor. Não vai funcionar. Não vai funcionar, porque o problema não é falta de liquidez. Melhor tratarmos de compreender as consequências dessa insanidade. Simples assim.

Dessa vez, a receita de 2008 não vai funcionar. Os EUA vão ser duramente atingidos. E os norte-americanos apenas começam a acordar para esse fato.

Essa Nova Ortodoxia nada é além de um desesperado jogar o dado para manter à tona o sistema ocidental hiper financializado. A narrativa do ‘mobilizados para a guerra’ não passa de tentativa para justificar medidas autoritárias, e o meme do resgate fake: nas guerras não houve ‘dinheiro grátis’.

Na crise de 2008/9, o público ficou perplexo: o mundo financeiro parecia demasiado complexo para ser completamente compreendido. Só adiante apareceu quem percebesse que os bancos tinham sido salvos mediante a ‘socialização’ de seus erros e prejuízos. As perdas foram ‘socializadas’, vale dizer, transferidas para o balanço das contas públicas, e disseram que o povo esperasse austeridade e mais austeridade [“arrocho e mais arrocho”] – e cortes nos sistemas de saúde e bem-estar, para pagar por todos aqueles ‘resgates’ de 2008.

Dessa vez, não são os bancos, mas as empresas e sua respectiva dívida ‘podre’, que as autoridades esperam conservar em formol (como foi feito, antes, com os bancos). Em termos simples, o sistema permitirá que empresas super alavancadas assumam dívidas ainda maiores – tomando esses empréstimos agora avalizados pelo governo federal dos EUA.

Mas... será que público mais bem informado aceitará prontamente que a empresa Boeing mereça ser ‘resgatada’ com $60 bilhões, quando todo o dinheiro que hoje falta à empresa foi torrado ano passado para recomprar as próprias ações da empresa e pagar altos dividendos a eles mesmos?! Pode-se perfeitamente argumentar que, se o dinheiro é só papel impresso... ninguém mais precisa se preocupar com a tal ‘austeridade’ e os tais cortes.

Mas imprimir dinheiro oco dilui o potencial subjacente de compra do próprio dinheiro que havia antes da diluição. Quer dizer que, outra vez, os mesmos 60% pagarão os custos – outra vez.

Essa ‘neoausteridade’ será transferência clandestina de riqueza mediante a diluição do poder de compra das pessoas.

Como Schiff observa, a inflação monetária “provavelmente não é só o pior cenário possível, é também o cenário mais provável (...) As leis da Economia aplicam-se aqui como se aplicavam na República de Weimar da Alemanha, no Zimbábue ou na Venezuela. Se seguimos a mesma política monetária e fiscal que foi seguida lá, receberemos o mesmo resultado monetário que se obteve lá (hiperinflação)”.

Esse argumento talvez pareça de certo modo ralo, para alguns. Mas suas implicações (políticas e geopolíticas) são imensas. Essa abordagem econômica de tempo de guerra, por si só, não trará mudança radical ao nosso mundo institucional neoliberalizado, nem lhe trará reformas. Essa janela foi fechada, depois de 2008. A realidade hoje é que ‘tocar’ o sistema agora pode induzir uma deflação de dívida [ing. debt-deflation] – possibilidade que realmente aterroriza o Establishment – ainda mais que uma iminente recessão por choque de oferta [ing. supply-shock recession].

Estamos travados e presos por causa dos erros dos banqueiros dos Bancos Centrais: não surpreende que as autoridades estejam tentando encenar uma atmosfera de guerra, para dizer que “dinheiro de helicóptero” é ótimo. “São tempos de guerra”. E provavelmente logo estarão mandando os militares ocuparem as ruas. Escrever o que estou escrevendo aqui logo será declarado ‘propaganda inimiga’.

O efeito de uma economia comandada como se estivéssemos em guerra não será empurrar a sociedade ou a economia para nova rota, mas, em vez disso, ressituará a economia nas velhas trilhas. Alguém acreditará que nessa nova era de ‘a economia manda’, os resgates e linhas de crédito controlados pelo governo não venham a ser canalizados principalmente para as elites políticas e seus aliados?

Mesmo assim, depois dos sacrifícios das duas Guerras Mundiais, houve aparente clima de ‘Novo Pacto’ [ing. ‘New Deal’] entre as pessoas. Aconteceu também depois de 2008: vozes clamaram por reformar um sistema que entrincheirava o 1% mais rico; mas em vez disso, só ganhamos austeridade [é ARROCHO], e logo todos estavam outra vez ‘nos negócios’, como sempre. A política foi deliberadamente projetada para impulsionar o velho sistema e fazê-lo funcionar como antes. Rejeitou-se toda e qualquer reforma.

Hoje, as pessoas estão totalmente focadas em gerir a própria vida sob quarentena por causa do vírus, mas o pêndulo político oscilou fortemente (a política chamada populista), contra o que já é visto por multidões como ‘sistema viciado’ ou ‘sistema pervertido’ [‘rigged system’].

A questão pois é, primeiro:

– Darão certo as ações monetárias dos EUA? Conseguirão na operação para salvar o sistema financeiro ‘como sempre foi’? Bem... considere-se o chamado por “dinheiro de helicóptero”: a expressão refere-se a dar dinheiro diretamente a indivíduos, tipo jogando dinheiro para todos, de um helicóptero. Mas destaca que quando Milton Friedman (pai da economia monetarista) cunhou a expressão, não pensava em ‘ciência’ ou ‘elogio’ nem recomendava a ideia:

“Usava a coisa como exemplo do que não fazer – [falava] sobre por que o estímulo monetário Keynesiano não funciona. Disse que a ideia é doida, estúpida (...), porque jogar dinheiro de helicóptero só funciona para gerar inflação. Só faz subirem os preços.”

E, em segundo lugar:

– Será que essa abordagem, a qual, seja como for, já não está funcionando, dado que os mercados continuam a implodir, provoca o surgimento de oposição mais concertada contra os excessos das finanças e a desigualdade, em todas suas variadas formas? Será que a demanda por reformar o sistema neoliberal torna-se impossível de deter? Será que o ‘espírito comunitário’ de sofrermos juntos o mal do vírus não nos fará ainda mais tolerantes com líderes que falharam ao não tomar a tempo as medidas adequadas para deter a disseminação da doença?

Aqui, é a ‘guerra’ à [doença] Covid-19 – não a outra ‘guerra’ para salvar a economia – que desempenhará papel chave para modelar o futuro geopolítico. Muita gente já comenta o quão forte seria o sentimento comunitário, nacional que está sendo gerado pelo Corona vírus. Aqui na Itália, os italianos realmente se sentem muito mais empaticamente conectados – na luta contra um inimigo comum (e de algum modo, sim, estão mesmo). Todos lamentamos pelos moradores da Lombardia e de Bergamo. E, os italianos também sabem disso, todos ali estão abandonados, entregues à própria sorte.

Esse sentimento de euro-salve-se-quem-puder (cada país por sua conta e risco) é palpável, e não confinado nas fronteiras da União Europeia, como quando o presidente da Sérvia (reagindo amargamente a notícias de que a União Europeia proibiu que se exportem equipamento médico como máscaras e luvas para proteger o pessoal médico), disse: “Não existe solidariedade internacional. Não existe solidariedade europeia”, ao que muitos italianos poderiam responder ‘ouçam, ouçam!’. A única ajuda que a Itália recebeu veio da China.

É a volta do estado-nação.

Covid-19 mudará o curso da política italiana e determinará – de modo significativo – o futuro da União Europeia. Sejamos bem claros: EUA e Reino Unido só conseguem oferecer liquidez que jorra furiosamente e ‘resgates’ sem conta – porque esses estados ‘imprimem’ dinheiro. Esses estados controlam a própria oferta de dinheiro, os próprios déficits – e, em muito menor medida, tem alguma margem de manobra sobre as taxas de juros. A União Europeia não tem. E discussões sobre mitigação financeira pela UE contra Covid-19 darão cabo das instituições e da unidade da UE – talvez a ponto de ruptura.

E essa atitude geral de salve-se-quem-puder e falta de empatia em nenhum outro ponto do mundo é sentida mais profundamente que na China. Mais, até, do que na Itália. A China foi ofendida e desqualificada, especialmente nos EUA, de modo que muitos chineses ressentem como atitude já muito próxima de discriminação racista. Pepe Escobar escreveu:

“Dentre os inumeráveis efeitos geopolíticos tectônicos do coronavírus, que são impressionantes, um já é claramente evidente. A China reposicionou-se. Pela primeira vez desde o início das reformas de Deng Xiaoping em 1978, Pequim considera abertamente os EUA como ameaça, declarou há um mês o ministro de Relações Exteriores Wang Yi na Conferência de Segurança de Munique, no pico da luta contra o coronavírus.

Pequim está modelando passo a passo, com todo o cuidado, a narrativa segundo a qual, desde os primeiros casos de doentes infectados pelo coronavírus, a liderança já sabia que estava sob ataque de guerra híbrida. A terminologia de que se serviu o presidente chinês é eloquente. Xi disse abertamente que se tratava de guerra. E que foi necessário iniciar uma “guerra do povo”, como contra-ataque” [17/3/2020, Pepe Escobar, China está em guerra híbrida com os EUA, Asia Times (ensaio, ing.), traduzido ao português em Blog Bacurau Homenagem ao Filme].


Europa e EUA terão pela frente, depois do Coronavírus, um eixo China-Rússia muito diferente. Os dois lados já tiraram as luvas. E a Europa será a primeira a sentir o efeito: acabou-se a euro-prevaricação. Quer dizer, nada mais de ‘pisar leve’ nas relações com a China (sobre 5G da Huawei – para ficarmos só nesse exemplo).

Rússia e China compreendem bem: ‘dinheiro de helicóptero’ e resgates com quantidades jamais vistas de ‘dinheiro-papel impresso’, eis os elementos que já mudaram todo o jogo. Por hora, o EUA-dólar está subindo, empurrado pela demanda crescente em estados que veem a própria moeda desabar, e que tomaram empréstimos em dólares, e veem esses empréstimos em dólares ficarem cada vez mais caros, dia após dia.

Mas os Bancos Centrais do G7 em algum momento terão de dar combate à inflação monstro que será desencadeada por suas ‘teorias helicóptero’. A confiança no dólar cairá, quanto mais ‘despejos’ de dólares de helicóptero sejam feitos. Juros subirão, e a dívida podre que se acumula no ocidente converter-se-á, de podre, em tóxica; e taxas de juros que não poderão ser mantidas.

Numa palavra, o mundo conhecerá EUA muito menos poderosos e menos competentes do que as aparências ainda fazem crer que haja. Suas lacunas bradarão aos céus.

Aproxima-se o tempo de um reset monetário global, conforme o dólar perde luz própria – conjectura provavelmente o presidente Putin...

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://www.strategic-culture.org/news/2020/03/23/helicopter-money-this-is-the-game-changer-geo-politically/
Publication date of original article: 23/03/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=28448

 

Tags: Helicóptero monetárioCrise do coronavírusGuerra Fria 2.0China-Rússia-EUAWall Street
 

 
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