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 20/09/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
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 EUROPE 
EUROPE / Como o Partido de Esquerda alemã alcançou estabelecer-se no cenário político da Alemanha “reunificada”
Date of publication at Tlaxcala: 11/02/2020
Original: Angekommen: der lange Marsche der Linkspartei zur Etabliertheit
Translations available: Español 

Como o Partido de Esquerda alemã alcançou estabelecer-se no cenário político da Alemanha “reunificada”

Thorsten Holzhauser

Translated by  Helga Heidrich

 

O historiador contemporâneo esfrega os olhos. Desde as eleições estaduais na Turíngia, a CDU tem debatido se deve manter o primeiro-ministro Bodo Ramelow no cargo. Ramelow é comumente descrito como um "socialdemocrata conservador", mas ele pertence ao partido "Die Linke" [A Esquerda]. Isto, por sua vez, conjura o "consenso dos democratas" contra o extremismo político. Há um quarto de século atrás, a situação era diferente. Naquela época, o "Partido do Socialismo Democrático" (PDS), como era chamado na época, era, ele próprio, combatido como extremista. Qualquer cooperação com ela era considerada tão perigosa quanto alheia à história, e o "consenso dos democratas" era a palavra-chave usada por todos aqueles que defendiam o isolamento ou mesmo a proibição do "partido sucessor da SED [Partido Socialista Unificado da Alemanha na RDA]”.



Para a sucata da história? Cartazes para a eleição da Câmara do Povo da RDA no ano 1990 em Berlim Oriental AKG

A integração do PDS e a questão de como lidar com ele foi uma das principais questões de disputa na república reunificada nos anos 90. No entanto, até agora, os historiadores quase que não trataram da transformação da SED para o PDS e deste último ao Partido de Esquerda . Isto também pode estar relacionado ao fato de os partidos políticos não estarem atualmente no centro dos estudos históricos. No entanto, um olhar histórico-contemporâneo sobre a história do Partido de Esquerda  atual revela muito sobre os desenvolvimentos políticos e sociais na República Federal ao longo das últimas três décadas: O desenvolvimento do partido esteve ligado aos debates centrais sobre o fim da antiga República Federal e o tratamento da RDA, a formação de um capitalismo global, “neoliberal” e, por fim, mas não menos importante, a transformação do político em uma suposta “era pós-ideológica”. Acima de tudo, porém, uma nova visão da história do Partido de Esquerda , baseada em fontes, permite uma reinterpretação do que o partido realmente era e queria ser e como ele se tornou o que hoje é. Torna-se claro que a história da integração do PDS numa Alemanha unida foi moldada muito menos pela sua oposição ao “sistema” da República Federal do que pela vontade dos seus principais grupos em estabelecer-se e alcançar reconhecimento na República Federal.

A história do PDS começou em dezembro de 1989, quando o partido ainda se chamava SED e governava a RDA, mas a sua supremacia vacilava. A velha guarda ao redor de Erich Honecker e Egon Krenz havia se demitido, o partido e seu Estado estavam em erosão, e a nova liderança ao redor de Gregor Gysi estava diante da questão de que direção tomar - demitir-se e dissolver o partido - ou continuar e salvar o que pudesse ser salvo?

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Gregor Gysi, por Max Kosta

Para Gysi, a primeira opção estava fora de questão, e por isso prometeu mudança e continuidade ao mesmo tempo, ao conseguir três coisas através de uma renovação radical: O partido deveria continuar a existir, deveria continuar a governar, e deveria continuar à frente de uma RDA reformada, mas socialista. Para isso, foram-lhe dados um novo nome, uma nova estrutura e um novo programa. O “socialismo democrático” era então a palavra de ordem, e a liderança do partido ainda acreditava que prevaleceria em eleições livres. Eles se enganaram. O “partido sucessor” perdeu as eleições da Câmara Popular, o poder de governar e finalmente também o seu Estado. Com o fim da RDA, o PDS foi finalmente confrontado com a questão de saber se ainda poderia desempenhar um papel numa Alemanha unida, democrática e capitalista.

No início, não parecia ser assim. No final de 1991, sobrava apenas um pouco mais que um décimo dos mais de dois milhões de membros anteriores, e o partido produzia uma manchete negativa atrás da outra. Em primeiro lugar, houve a tentativa de desviar uma parte da fortuna bilionária da SED, depositando-a em contas no estrangeiro ou transferindo-a para empresas criadas especificamente para este fim. Em 2003, a “Comissão Independente para Examinar os Bens dos Partidos e das Organizações de Massa da RDA” (UKPV), criada pela Câmara do Povo, chegou à conclusão de que o PDS seguira uma “estratégia de ocultação de bens” desde o início.

Em segundo lugar, havia os muitos escândalos da Stasi [Ministério para a Segurança do Estado] envolvendo membros do parlamento e funcionários, nos quais a liderança do partido se posicionava regularmente ao lado dos acusados: O PDS era meramente colorido e não monocromático, de acordo com o posterior líder federal do partido, Lothar Bisky, membro do SED desde 1963. E em terceiro lugar, havia a questão de lidar com o passado. Muitos no partido, sobretudo a “Plataforma Comunista”, consideravam o fim da RDA como uma contrarrevolução capitalista, e Sahra Wagenknecht, de 23 anos, admirava publicamente a política de modernização de Josef Stalin.

O partido não queria admitir que o SED fora fundado em 1946 através de uma “fusão forçada de partidos”, que a RDA tinha sido um “Estado de Injustiça” e que o regime foi responsável por mortes, miséria e perseguição. Tentativas de superar o passado ditatorial, de expor os lados totalitários do regime do SED e de levar os culpados à justiça pareceram para a maioria no PDS uma expressão da mentalidade de vingança ocidental: “justiça para os vencedores” era a palavra-chave.

Por esta mesma razão os concorrentes mantinham distância. O SPD já tinha anunciado uma “proibição de contato” em dezembro de 1989. Os antigos “partidos do bloco” tentaram fazer esquecer o seu próprio passado ao lado do SED. E as forças burguesas do Ocidente sustentaram a sua identidade anticomunista, distanciando-se do PDS. O denominador comum era a “lei não escrita da República Federal” que os partidos “com credenciais democráticas duvidosas” deveriam ser isolados, como disse o historiador Heinrich August Winkler. Enquanto questionava o Estado constitucional alemão, criticava a democracia defensiva como antidemocrática e o parlamentarismo como insuficiente, o PDS continuava sendo o pária da política alemã.

Mas já não mais se tratava apenas do Estado constitucional democrático. O fato de que o PDS falava de capitalismo e de imperialismo, rejeitava os laços ocidentais e a adesão à OTAN e criticava a UE de Maastricht também foi visto como prova do seu extremismo. Em última análise, o partido sempre foi medido em relação ao consenso político geral que se desenvolvera ao longo de quatro décadas da República Federal da Alemanha: a relação com a democracia parlamentar, a posição contra o totalitarismo, a economia de mercado e os laços com o Ocidente continuaram a ser a pedra de toque central para cada partido político.

O que isolou o PDS para fora, no entanto, contribuiu consideravelmente para a sua estabilização interna. Diante das críticas de todos os lados, os membros se entrincheiraram na “fortaleza” do PDS. Alegavam que os governantes do Ocidente estavam preocupados em oprimir a oposição de esquerda e privar os alemães do Leste da sua identidade e, portanto, do pré-requisito para a representação autoconfiante dos seus interesses. As questões de identidade começavam a predominar, o partido falava dos “partidos estabelecidos” em vez do “grande capital”, dos “alemães orientais” em vez da “classe trabalhadora”, e montou o “Leste” como um sujeito político que “passava a sentir o carácter colonialista da unificação alemã”.

O PDS consolidou-se assim como uma comunidade emocional do ambiente SED e, ao mesmo tempo, tornou-se o porta-voz de todos aqueles que se sentiam tão estrangeiros e marginalizados numa Alemanha unida quanto o próprio partido. É indiscutível que a unidade alemã e a transformação pós-socialista, com seus cortes profundos na realidade da vida da população da Alemanha Oriental, ofereciam muito espaço para isso. O PDS, por sua vez, ensaiou o papel do “vox Populi”, que mais tarde o ajudaria a alcançar um avanço na Alemanha.

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Por mais bem-sucedida que essa estratégia tenha sido, o objetivo da liderança do partido era outra história. Desde dezembro de 1989, a liderança estava nas mãos dos chamados socialistas reformistas em torno de Gregor Gysi e André Brie, que naqueles anos ficou conhecido como o “estrategista-chefe” do partido. Na verdade, o grupo ao redor de Brie não via nada de inimigo no Ocidente. Ao invés, nos anos 80 eles tinham tido uma atitude mais positiva em relação ao sistema ocidental do que alguns Verdes e esquerdistas do SPD. Em contraste com o socialismo real, perceberam que a sociedade burguesa tinha sido capaz de garantir o equilíbrio social, o consenso e a “integração social mesmo daqueles críticos do sistema”. Eles conseguiram até ver algo positivo no capitalismo regulado pelo Estado da antiga República Federal.

Para “reformadores” como Gysi e Brie, não poderia, portanto, ser uma questão de definir-se a longo prazo num distanciamento do Ocidente. Ao contrário, eles perseguiram o objetivo de “desembarcar” e “fazer seu jogo” na República Federal, em vez de apenas “ficar à margem”, como dizem os próprios atores. O desejo de aceitação pelas elites da Alemanha Ocidental na política e na economia tornou-se a principal força motriz por trás do PDS, ao qual, por vezes, foi dado mais importância do que a qualquer outro objetivo estratégico. O fato de o hábito do distanciamento ser tão incompatível com este objetivo como a pretensão de superar o capitalismo é uma das grandes aporias da história do PDS.

Gysi era visto com frequência nos programas de televisão “Sabine Christiansen” e “Talk im Turm”, que se tornaram cada vez mais importantes para a formação de opinião no país. Nos arquivos da Fundação Rosa Luxemburgo, há uma série de saudações e mensagens amigáveis que o capataz do PDS trocou com membros do parlamento de todos os grupos parlamentares. Mas Gysi também manteve contato com pessoas da igreja, homens de negócios e membros de diretorias; até políticos líderes da União o consideravam como interlocutor agradável, que não tinha exatamente “a maldade espreitando de cada um de seus botões”, como Wolfgang Schäuble disse certa vez.

Com seus modos burgueses, carisma e retórica, o advogado Gysi foi capaz até mesmo de ignorar as acusações de ter sido agente da Stasi contra ele. Além disso, o socialista declarado tornou-se o protótipo do político pós-ideológico. Sua ironia e dialética, sua disponibilidade calculada para quebrar tabus e sua flexibilidade política se encaixam perfeitamente na ideia contemporânea de que as duras batalhas ideológicas do século 20 se acabaram e que o passado deveria ser deixado para jazer em paz.

Pouco depois foram os opositores de Gysi que passaram a ser descritos como relíquias da “Guerra Fria”, especialmente porque seus poderes de persuasão estavam diminuindo. Quando o candidato da CDU Frank Steffel advertiu contra uma tomada comunista do poder na campanha eleitoral de 2001 em Berlim, a mídia da capital estava céptica, pois Gysi e Steffel foram vistos nos bastidores, divertidos, brindando com um copo de vinho.

Enquanto Gysi se tornava socialmente aceitável, o seu partido consolidava a sua posição na sociedade pós-socialista. Ali, os vereadores do PDS e os representantes comunitários já eram considerados “pessoas perfeitamente normais”, ativos em comunidades de hortas e jardins ou em iniciativas de inquilinos. O fato de terem sido melhores do que outros ao abordar as “preocupações diárias” dos alemães orientais tornou-se um tópico nos anos 90 que até os opositores políticos procuraram abordar. Logo se falava do “Partido do Povo do Leste”.

A partir de meados dos anos 90, o partido também tem tido cada vez mais sucesso em superar o seu isolamento inicial em termos de política de coligação. A campanha “Carpins Vermelhos”, com a qual a CDU advertia contra uma “frente de esquerda” na campanha eleitoral federal de 1994, que já era controversa naquela época, mas o seu relançamento quatro anos depois foi um fracasso. O sucesso eleitoral do PDS alimentou dúvidas sobre se seria sensato isolá-lo permanentemente e desse modo encaminhar os eleitores de protesto em sua direção. Ao mesmo tempo, espalhou-se a tese de que o PDS sob Gysi e Bisky se assemelhava a um “projeto de aprendizagem pós-comunista” que poderia ser integrado e domesticado. Até mesmo Wolfgang Pfaff, presidente do Escritório de Brandenburgo para a Proteção da Constituição [serviço de inteligência interno], o viu assim: o partido era muito menos radical que o SPD de Hesse do Sul dos anos 70. E se a “mudança de sistema” não se tivesse concretizado naquela altura, não haveria nada do que se preocupar com relação ao PDS.

O teste para servir de exemplo teve lugar onde os sucessores da SED assumiram novamente o poder. Nem na Saxônia-Anhalt, onde um governo minoritário vermelho-verde era tolerado desde 1994, nem nos governos estaduais vermelho-vermelhos [SPD-PDS] de Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental (1998-2006) e Berlim (2002-2011) havia sinais de uma quebra no sistema. O PDS sempre apoiou decisões impopulares para não pôr em perigo a existência da coligação. Ele votou no Bundesrat [Conselho Federal, equivalente no Senado] a favor de projetos vermelho-verdes, que havia apregoado como anti-sociais e neoliberais, e com o uso de medidas de austeridade e de privatizações virou sua própria base contra si mesmo. Gregor Gysi elogiou as “conquistas da economia social de mercado”, e o partido citou recentemente o “capitalismo renano” como um modelo de sucesso. Quando a liderança do partido em Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental fez um balanço de quatro anos de governo vermelho-vermelho em 2002, o orgulho e a desilusão misturaram-se: embora a esperança de uma mudança genuína na política não tivesse sido cumprida de forma alguma, o PDS tinha-se tornado uma “força sistêmica”.

No entanto, a estratégia dos reformadores de esmerilhar gradualmente as bordas do PDS atingiu os seus limites. Em particular, a relação com a sua própria história foi motivo de crítica, e continua até hoje. Toda admissão de culpa foi seguida de restrições e recriminações, e quase nenhuma declaração sobre o passado foi feita sem a pressão política da coalizão de fora ou da oposição escandalizada de dentro. Como comunidade de sua memória política, o partido permaneceu enraizado na tradição do SED até o final - especialmente porque suas narrativas foram amplamente divulgadas na Alemanha Oriental, como mostra o debate sobre o conceito de Estado de injustiça.

Na política externa e de segurança, também, todas as tentativas de aparar o PDS para maior flexibilidade e pragmatismo falharam. Ao invés disso, as elites partidárias tiveram que comprar sua margem de manobra na política interna, sendo mais rigorosas na política externa. No conflito do Kosovo, por exemplo, mesmo os reformadores mais domesticados acusaram a OTAN de “guerra de agressão” e de “terror de bombardeio”.

Finalmente, a expansão esperada para o oeste não se concretizou por enquanto. No solo da “velha” República Federal, ainda era considerado um “Partido Oriental” quase comunista com um legado totalitário. E no Leste? Mesmo na virada do milênio, o PDS se encontrava em uma situação semelhante à de hoje: os eleitores de protesto estavam fugindo dela. Se a suposta alternativa em si pertencia ao estabelecimento, por que ainda assim deveria ser eleita? O partido recebeu a quitação nas eleições federais de 2002, onde falhou no obstáculo dos cinco por cento. A isto seguiu-se uma crise existencial, uma luta interna pelo poder e um teste crucial. O caminho de integração representado por Gysi e Brie parecia ter levado a um beco sem saída.

A saída dessa situação apareceu com a “Agenda 2010”. Na oposição às reformas do mercado de trabalho vermelho-verde de 2003 a 2005 o PDS viu a oportunidade de recuperar o seu perfil. A estratégia de polarização dos anos 90 foi reavivada. Só que agora não era mais contra “aqueles do outro lado”, mas contra “aqueles lá em cima”. O objetivo era alcançar as “vítimas da expansão capitalista” (Franz Walter), e isto em ambas as partes do país. No ex-presidente do SPD Oskar Lafontaine, ela encontrou um novo tribuno para este fim, que não se perturbava com o passado da SED. E o fato de o partido ter sido enobrecido como elegível para eleições e por ser democrático pelo DGB [Confederação sindical], Ver.di [sindicato de serviços] e IG Metall [sindicato metalúrgico] na campanha eleitoral federal de 2005 foi um fator decisivo para mobilizar eleitores do SPD e não votantes, desempregados e trabalhadores decepcionados. Só agora é que o salto para o Ocidente foi bem-sucedido. O “partido sucessor da SED” tornou-se o “Partido de Esquerda ” para toda a Alemanha.

Para a política de integração dos reformadores, porém, a expansão para o Ocidente dos anos de 2005 a 2010 foi um sucesso com efeitos colaterais. Pois o Partido de Esquerda totalmente alemão era ainda mais heterogêneo e dividido do que o PDS jamais tivera sido. No Ocidente, o partido não se baseou no pragmatismo e na cooperação, mas na polarização e distanciamento. Ele se recrutou não somente de sindicatos sociais-democráticos, mas também de comunistas e trotskistas e apelava para um eleitorado de protesto, flutuante, que se entendia como “o povo”.  Assim, Oskar Lafontaine agitou contra “leis vergonhosas” e “fraude eleitoral” já em 2005, alertou contra “trabalhadores estrangeiros” e “sociedades paralelas” e foi logo considerado como o “Jörg Haider alemão” que deliberadamente ultrapassou os limites do que a esquerda em particular considerava ser bom e decente. A partir daí Lafontaine, juntamente com Sahra Wagenknecht, representava um partido que representava um poder protetor contra os perigos da modernidade globalizada. Os dois também desempenharam este papel na crise do euro desde 2010 e no debate sobre as migrações a partir de 2015.

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Oskar Lafontaine e Sahra Wagenknecht

Como reação, eles colheram muito vento contrário vindo de dentro do seu próprio partido - sobretudo de Katja Kipping, que assumiu a presidência do partido em 2012. Com Kipping, nascida em 1978, uma nova geração avançou para o topo, que queria transformar o partido de velhos senhores, nostálgico e de orientação nacional em uma força mais jovem, mais feminina e cosmopolita. O partido visava visivelmente um ambiente verde de esquerda em cidades como Dresden e Leipzig, mas também Hamburgo e Bremen, onde o partido conseguiu alcançar resultados de dois dígitos nas eleições federais de 2017. O fato de que o Partido de Esquerda  está participando no governo de Bremen e, portanto, pela primeira vez em um Estado da Alemanha Ocidental, também pode ser visto nesse contexto.

Nos Estados da Alemanha Oriental, por outro lado, os funcionários continuaram o curso de Brie e Gysi e tinham em mente um “partido do povo” pronto para cooperar. A eleição de Bodo Ramelow como Ministro Presidente da Turíngia, em 2014, foi inteiramente de acordo com esta lógica e foi um sucesso tardio para as forças reformistas.

"Mike Mohring (presidente da CDU da Turíngia) testa a aproximação para a esquerda". Charge de Roger Schmidt

Quase trinta anos após o fim da SED, “Die Linke” se encontra mais uma vez numa encruzilhada. Se realmente houvesse algum tipo de cooperação entre um governo de esquerda e a CDU, seria outra quebra de tabu, mas não uma revolução. O socialismo não está de volta com Ramelow, e até Sahra Wagenknecht prefere citar há uma década Ludwig Erhard em vez de Josef Stalin. A forma como o partido lida com sua própria história não impediu as coalizões no passado, e mesmo críticas fundamentais aos EUA e à OTAN perderam seu poder explosivo na era de Trump, Erdogan e Boris Johnson. Além disso, com a “Alternativa para a Alemanha” [AfD], surgiu um novo partido que disputa o papel do pária com a esquerda.

Isso ficou mais do que claro nas recentes eleições estaduais: enquanto “Die Linke” se tornou a força mais forte na Turíngia e foi capaz de pontuar com os eleitores do SPD e da CDU, ele perdeu votos para a AfD. O Partido de Esquerda  também perdeu muitos votos em Brandenburgo e na Saxônia. Quem hoje se posicione contra “o sistema” e “as elites” encontrará uma nova oferta na extrema direita radical do espectro do partido. “A Esquerda”, por outro lado, já faz parte do sistema.

O que foi então o que mudou, o partido ou as circunstâncias? A resposta é: ambos. A luta dos seus líderes pela integração e reconhecimento moldou o partido mais do que há muito podia ser percebido. Sob o manto da crítica ao sistema, o Partido de Esquerda fez em grande parte as pazes com a República Federal e, assim, enveredou por um caminho semelhante ao dos Verdes anteriormente. Mas também deve a sua crescente integração às mudanças sociais dos últimos trinta anos. Por um lado, houve a mudança estrutural econômica, que afetou o Leste e o Oeste em diferentes graus de intensidade. O sucesso do PDS nos “novos Estados” indicou as distorções que a reunificação e a transformação haviam deixado, e quando o consenso para a reforma liberal de mercado alcançou o Oeste da República, o partido teve a oportunidade de se expandir. Como antes no Leste, também aqui representa agora os críticos e os vencidos da mudança social no Oeste e se beneficia do fato de que a socialdemocracia “modernizada” consegue cada vez menos alcançar esses grupos.

Por outro lado, isto, por sua vez, teve a ver com a mudança da política na Alemanha unida. As mudanças no cenário da mídia pareciam terem sido feitas para preparar o cenário para uma força polarizadora como o PDS. Com o canto do cisne à era das ideologias, as imagens inimigas do conflito Leste-Oeste e com elas as suas crenças desvaneceram-se. O PDS teve que se despedir do comunismo e se reinventar. Pouco a pouco assumiu posições socialdemocratas e tentou um populismo que invoca identidades e dilui velhos antagonismos esquerda-direita. Isto, por sua vez, trouxe novos conflitos para o partido, que ainda hoje são visíveis. Enquanto os resultados eleitorais no Leste e no Oeste estão se tornando cada vez mais semelhantes, Sahra Wagenknecht e Katja Kipping representam duas respostas completamente diferentes aos desafios globais de hoje. A busca do partido está longe de ter terminado, mas uma coisa é certa: o Partido de Esquerda alcançou sua posição entre os “estabelecidos”.

 

Sahra (esq.) e Katja fotografadas como modelos de catálogo de supermercado pelo semanário Der Spiegel em 2018. Esta foto não causou nenhum escândalo, e as modelos parecem ter concordado em fazer tal pose. É a chamada “era pós-ideológica”...

 





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Source: https://zeitung.faz.net/faz/politik/2020-02-03/angekommen/419369.html
Publication date of original article: 03/02/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=28061

 

Tags: Partido de Esquerda alemã Alemanha
 

 
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