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 CULTURE & COMMUNICATION 
CULTURE & COMMUNICATION / Nos tempos em que Stalin amava Hitler: a odisséia de Margarete Buber-Neumann e dos comunistas alemães exiliados na União soviética
Date of publication at Tlaxcala: 09/02/2020
Translations available: Français 

Nos tempos em que Stalin amava Hitler: a odisséia de Margarete Buber-Neumann e dos comunistas alemães exiliados na União soviética

Mário Maestri
Florence Carboni


Edited by  Fausto Giudice Фаусто Джудиче فاوستو جيوديشي

 

O pacto entre Stalin e Hitler não foi acordo espúrio a fim de dar tempo para  a URSS preparar-se à ataque nazista, como defendem apologistas do estalinismo. Era Trotsky e a Oposição de Esquerda Internacional que propunham a inevitabilidade daquela agressão, desde inícios dos anos 1930. E eram acusados, por isso, pelos estalinistas, de fomentarem a guerra entre os dois países. Stalin e a direção estalinista acreditavam no respeito por Hitler e pelo nazismo do pacto de não agressão que dividiu a Polônia e abriu as portas à Segunda Guerra Mundial.  Um fato da vida quotidiana da URSS estalinista registra esse breve amor profundo de Stalin, jamais correspondido por Hitler, amante insincero, sinistro e ardiloso, que sempre soube que a URSS era seu maior inimigo.


-A escória da terra, creio eu.
-O assassino sangrento dos trabalhadores, presumo eu?

Rendezvous, por David Low, Evening Standard, Londres, 20 de setembro de 1939

Margarete Thüring estudou para educadora de berçário, aderiu à Juventude Comunista Alemã e, em 1926, com 25 anos, ao Partido Comunista Alemão. Casou-se com Rafael Buber, ativo camarada de origem judaica, com quem teve duas filhas, separando-se devido ao fato do companheiro se afastar do comunismo. Por sua militância, perdeu a guarda das filhas, em 1928, entregues aos sogros, judeus praticantes.

Um jovem camarada

Margarete casou-se a seguir com Heinz Neumann, fundador e alto dirigente do PCA, diretor-chefe do periódico comunista Bandeira Vermelha (Rote Fahne), também ativo quadro da Internacional Comunista. Heinz Neumann caiu em “desgraça”, em 1932, por opor-se à política estalinista para a Alemanha, que subestimava o perigo nazista. A mesma posição defendida, então, pela Oposição de Esquerda Internacional [trotskista]. O casal foi enviado em missão à Espanha e, devido à conquista nazista do governo, em 1933, se radicou em Moscou, em 1935. 

Em 27 de abril de 1937, durante o “Grande Terror”, Heinz Neumann foi preso, julgado, condenado à morte e executado no mesmo dia, talvez com o tradicional tiro na nuca. Tinha então 35 anos. Em junho de 1938, foi a vez de Margarete Buber-Neumann. Acusada de atividades contrarrevolucionárias [trotskistas], foi  condenada a longos anos de trabalhos forçados penosos em campos de concentração estalinistas. É também possível que sua condenação tenha se devido ao fato de ser esposa do alto dirigente comunista, com tradição crítica, com quem debateria as questões políticas alemãs, soviéticas e internacionais. Ela chegou ao arquipélago de Gulag, primeiro na prisão de Butyrka, depois em Karaganda, na estepe caucasiana.

Berlin, setembro de 1933: mandado de busca e apreensão contra 21 comunistas, incluindo Heinz Neumann, acusados do assassinato de dois polícias em 1931.

Beijo macabro dos Noivos

Após o noivado e o casamento Stalin-Hitler, os noivos trocaram presentes logicamente sinistros. Em 1940, Stalin entregou de presente aos nazistas os comunistas alemães presos nas prisões estalinistas. Entre eles, Margarete, extraditada sobre a ponte de Brest-Litovsk, na atual Bielorrússia, e enviada ao campo de concentração feminino de Ravensbrück, noventa quilômetros ao norte de Berlim. O mesmo em que estava aprisionada Olga Benário, também comunista alemã, de origem judia, entregue aos nazistas pela polícia política de Getúlio Vargas, com a gentil cooperação do STF da época. Margarete teve melhor sorte que Olga.

O Hotel Lux em Moscou, onde os líderes e ativistas comunistas alemães exilados, incluindo Heinz e Margarete, foram acomodados. 178 deles foram vítimas das purgas estalinistas...

Em abril de 1945, com a aproximação do Exército Vermelho, prisioneiras do campo de Ravensbrück foram deixadas em liberdade. Então, Margarete empreendeu viagem a pé, através da Alemanha, procurando refúgio entre familiares, na Baviera, e se esforçando para não cair nas mãos do Exército Soviético, onde a NKVD era ativa. Temia ser reenviada aos campos de concentração estalinistas, sorte que coube a grande número de comunistas libertados das prisões ou que sobreviveram a repressão nazistas, entre eles, o célebre Leopold Trepper, comunista polonês de origem judaica, organizador da maior rede de espionagem comunista na Europa Ocidental, conhecido como a “Orquestra Vermelha”. Após a guerra, permaneceria em campo de prisioneiro estalinista, por nove anos, mesmo após a morte de Stalin, em 1953!

Após a guerra, Margarete Buber-Neumann assumiu viés político conservador e, a seguir, anticomunista. O que de se lamentar, mas compreensível. Entre outros, escreveu dois importantes livros de memórias sobre seus anos nos campos de concentração estalinistas e nazistas:  Milena - sobre Milena Jesenska, uma jornalista inspirada, comunista, amiga e leitora de Kafka, que Margarete conheceu no campo de Ravensbrück, onde morreu em 1944-, editado no Brasil (Guanabara, 1987), e Prisoniera de Stalin e Hitler [original alemão e tradução inglesa, 1949], inédito em português [talvez seja hora de traduzi-lo: algum voluntári@?, NdE].  

 





Courtesy of Tlaxcala
Publication date of original article: 09/02/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=28044

 

Tags: Margarete Buber-NeumannHeinz NeumannKPDStalin/HitlerGulagRavensbrückEstalinismoUnião soviéticaNazismoHistória do Século XX
 

 
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