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 20/09/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 ABYA YALA 
ABYA YALA / 2020: “Não se trata mais de ganhar eleições, mas construir uma nova história a partir de baixo”
Entrevista com Alberto Acosta, Equador
Date of publication at Tlaxcala: 15/01/2020
Translations available: Español  Italiano 

2020: “Não se trata mais de ganhar eleições, mas construir uma nova história a partir de baixo”
Entrevista com Alberto Acosta, Equador

Gabriel Brito

 

Sob o signo do cansaço e da descrença, 2020 começa com as mesmas pautas privatizantes e reajustes em serviços já privatizados que marcaram os últimos três anos de radicalização neoliberal. No plano externo, as revoltas populares nos países vizinhos – e também globalmente - e tensões belicistas no Oriente Médio continuam. Enfim, uma crise generalizada que torna tudo imprevisível, expressa a exaustão de um modo de vida e “prefigura uma mudança civilizatória”, como afirma Alberto Acosta, economista e ex-presidente da Assembleia Constituinte do Equador, primeiro entrevistado do Correio no ano.

 

 

Crítico dos mais contundentes das esquerdas que governaram países latinos, em especial pelo seu método de desenvolvimento econômico, Acosta explica por onde se deu a brecha do retorno das direitas: “os progressismos não deram passagem às transformações estruturais que permitiriam – ao menos começar a – construir bases econômicas, sociais e políticas mais sólidas para a superação da dependência extrativista e suas sequelas. Tampouco se afetaram as estruturas próprias de acumulação de capital, exacerbada pelos extrativismos descarados: mineiro, petroleiro, agroindustrial... Além disso, com suas políticas de disciplinamento social e de criminalização dos defensores da natureza, debilitaram as bases da organização social, afetando aqueles grupos que outrora enfrentaram o neoliberalismo”.

Um dos principais construtores do movimento Aliança País que elevou Rafael Correa à presidência do Equador e presidente da Assembleia que outorgou a este país uma nova Constituição, Alberto Acosta viveu por dentro o processo de burocratização e afastamento dos movimentos populares das esquerdas hegemônicas no continente. Entusiasma-se, mas não se ilude, com os recentes levantes populares, que a seu ver reforçam que toda uma sociabilidade e um modelo econômico se esgotaram no tempo.

“Este é o maior potencial: a surpresa como uma ferramenta indispensável para conseguir avançar, o que será duradouro sempre que a sociedade em movimento mantiver elevada a criatividade e, certamente, que exista clareza nos objetivos estratégicos a serem alcançados, o que, insistimos, não podem ser simples reedição atualizada de velhas propostas, e menos ainda a repetição cansada das mesmas táticas. Apesar de saudar os mencionados levantes, em nenhum caso emergem dali mecanicamente saídas democráticas claras”.

Autor do livro O Bem Viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos e Pós-extrativismo e decrescimento, Acosta alerta para o espectro da militarização em todo o continente e fornece alguns elementos que enxerga como fundamentais à construção de um novo momento político positivo para as massas.

“Definitivamente, o que está claro é que a premissa descolonizadora e despatriarcalizadora, elementos fundamentais na superação da exploração do ser humano e da natureza por parte do capital, demanda refundar os Estado-nações coloniais, oligárquicos, capitalistas para que estas transformações não fiquem simplesmente nos discursos. Não se trata de simplesmente ganhar eleições para acessar o poder, mas construir um poder desde baixo, desde a esquerda e sempre com a Pachamama (mãe terra) para impulsionar um processo de radicalização permanente da democracia”.

A entrevista completa pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: O chamado fim de ciclo dos governos progressistas foi sucedido pelo retorno das direitas, em alguns casos, como no Brasil, as mais reacionárias e virulentas desde o fim da ditadura militar. O que explica essa dinâmica em sua visão e o que podemos colocar como expectativa geral para 2020?

Alberto Acosta: Para entender o que acontece nestes momentos na América Latina, sobretudo em países onde a direita substituiu – em alguns casos de maneira incrivelmente acelerada – governos progressistas, como nos casos de Brasil e Bolívia, caberiam perguntas complementares: por que se derrubaram tão rapidamente estes processos? Como se explica a ascensão de uma ultradireita que já deixou de dissimular ou esconder, com prédicas homofóbicas e racistas, suas propostas autoritárias, conservadoras e também neoliberais?

Para além das indiscutíveis ações desestabilizadoras do Império, as quais se soma a influência da “internacional cristo-neofascista”, nas palavras do teólogo espanhol Juan José Tamayo, algo não funcionou na América Latina progressista nos anos anteriores. Falou-se muito de revolução e socialismo, inclusive de democracia. Sem a pretensão de esgotar o tema, é evidente que os governos progressistas não conseguiram democratizar suas sociedades, em alguns casos até pulverizaram a institucionalidade política a que propuseram mudar através de processos constituintes, como na Venezuela e no Equador.

A corrupção esteve presente de maneira deslavada em toda a região, inclusive em tais governos. E o desejo de se sustentar no poder contribuiu com a configuração de regimes caudilhescos e autoritários, que em alguns casos para se manter terminaram pactuando com forças conservadoras e da direita corrupta, como sucedeu no Brasil nas alianças do PT com o PMDB.

Mas há mais coisas de fundo. Os governos progressistas não tentaram superar as tradicionais estruturas de suas economias primário-exportadoras, pelo contrário, aprofundaram-nas: os extrativismos foram a fonte de renda para sustentar esquemas neodesenvolvimentistas e ampliar as políticas sociais, dentro de um marco de crescente consumismo financiado, enquanto durou o ciclo de preços altos das matérias primas.

Em suma, o financiamento de tais economias repousou mais e mais nas exportações primárias e na captação de investimento estrangeiro, aceitando-se uma inserção subordinada no comércio global e, de passagem e na prática, uma ação limitada do Estado; a ampliação dos extrativismos veio de mão dada com claras tendências desindustrializantes e um aumento da fragilidade financeira. E como bem sabemos consolidaram um Estado não só rentista, mas práticas empresariais rentistas, esquemas que vêm acompanhados de relações sociais clientelistas e governos autoritários. O resumo é: mais extrativismo, menos democracia, independentemente de se tratar de governos neoliberais puros ou progressistas.

Para completar este cenário, com os governos progressistas não se afetou a lógica de acumulação de capital: apesar de ter reduzido a pobreza enquanto houve recursos para sustentar as políticas sociais e o consumismo, a concentração da riqueza alcançou níveis cada vez maiores (tendências que se registraram também em países de governos neoliberais).

Como anotamos com Eduardo Gudynas – ao buscar as causas para entender a derrota do PT no Brasil e as sequelas do triunfo de Bolsonaro para a região – tudo isso explica porque o neodesenvolvimentismo – enquanto durou o largo ciclo dos altos preços das matérias primas – foi apoiado tanto por setores populares como por parte da elite empresarial: “Lula da Silva era aplaudido, por razões diferentes, tanto em bairros pobres como no Fórum Econômico de Davos”.

Na prática funcionou um dos dispositivos que o capitalismo possui para construir hegemonia através da capacidade – em especial durante o auge do ciclo capitalista – de reduzir a desigualdade entre trabalhadores sem tocar na desigualdade entre estes e as classes dominantes; tal capacidade se reconhece como – no dizer do grande economista peruano Jürgen Schudt – a hipótese do “focinho de lagarto”: um focinho composto por uma mandíbula superior que reflete a alta desigualdade da riqueza, a qual possui uma rigidez (quase estrutural) e só se move ante mudanças igualmente estruturais nas relações de propriedade desta riqueza; e uma mandíbula inferior que recolhe a cambiante desigualdade da renda, a qual diminui graças à largura das etapas de auge (o “lagarto capitalista” afrouxa suas presas quando tem muito pra comer) e aumenta pela escassez nas etapas de crise (o “lagarto” aperta suas presas); tudo no meio de um ciclo capitalista que se torna mais volátil e instável em sociedades extrativistas como as latino-americanas.

Em paralelo, o desenvolvimentismo progressista, firmado em profundas raízes coloniais e em bases extrativistas cada vez maiores, foi sustentado com crescentes e duros controles sobre a mobilização cidadã, com a criminalização de quem se opunha à ampliação dos extrativismos, assim como na flexibilização das normas ambientais e laborais para atrair investimentos. Isso enfraqueceu a base daquelas forças sociais com capacidade transformadora. Tudo isso foi abrindo o terreno para o surgimento da atual restauração conservadora, que na realidade começou durante os próprios governos progressistas – basta recordar como o correísmo se opôs à introdução da possibilidade legal do aborto por estupro no Equador.

Aceitemos, portanto: os progressismos, que surgiram de matrizes de esquerda, no final das contas simplesmente administraram governos que na essência procuravam modernizar o capitalismo.

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Courtesy of Correio da Cidadania
Source: http://www.correiocidadania.com.br/34-artigos/manchete/14005-2020-nao-se-trata-mais-de-ganhar-eleicoes-mas-construir-uma-nova-historia-a-partir-de-baixo
Publication date of original article: 10/01/2020
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=27872

 

Tags: Alberto AcostaEquadorDebaixo à esquerdaAbya YalaMovimentos populaisRevoltas lógicas
 

 
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