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 17/02/2020 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
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 EDITORIALS & OP-EDS 
EDITORIALS & OP-EDS / O rei louro malvado toma o trono britânico: por que o Partido Trabalhista foi derrotado
Date of publication at Tlaxcala: 02/01/2020
Original: Evil blond king takes the British throne: why the Labour Party lost
Translations available: Français 

O rei louro malvado toma o trono britânico: por que o Partido Trabalhista foi derrotado

Supriyo Chatterjee সুপ্রিয় চট্টোপাধ্যায়

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

O Partido Labour britânico tentou tomar o céu de assalto nas eleições gerais de 12 de dezembro e, em vez disso, encontra-se às portas do inferno.. Foi esmagado pelo Partido Conservador, que obteve maioria que não se via desde os dias de Margaret Thatcher e terá, em Boris Johnson, a versão Reino Unido de Donald Trump, embora com menor número de controles sobre os próprios poderes.

Embora tenha havido muitos sinais de alerta da ampla e muito disseminada impopularidade do Partido Labour e especificamente de seu líder, Jeremy Corbyn, o estado de espírito entre as dezenas de milhares de membros das fileiras do povo, que fizeram campanha corpo a corpo com os eleitores, foi uma combinação de negação e desafio. Creram que logo se demonstraria que a mídia e as pesquisas estavam erradas; sentiam que as políticas da ala esquerda do Partido derrotariam a hostilidade popular; e mais que tudo, diziam-se, eles a eles mesmos, que o voto jovem geraria um Parlamento ‘contido’, se não garantisse vitória total para os candidatos ‘jovens’.

 

Foi o Brexit, estúpido

Os Conservadores concorreram às eleições gerais de 2019 como se fosse segundo turno da votação sobre o Brexit em 2016, quando uma estreita maioria (52%) decidiu num referendum que a Grã-Bretanha deveria separar-se da União Europeia. A maioria pró Brexit foi de cerca de dois milhões de votos na Inglaterra, e cerca de 400 dos 650 votos no Parlamento favoreceram a opção de o país separar-se da UE. Dessa vez, os resultados foram uma quase repetição da votação do Brexit: o Partido Labour perdeu 59 assentos a favor de “sair” no total de votos perdidos, 62, se comparados aos resultados de 2017. Perdeu também três milhões de votos: estimados dois milhões de eleitores dos trabalhistas abstiveram-se de votar, e cerca de um milhão deles trocaram de lado. Os filiados do Labour são hoje, predominantemente, classe média, e exigiram que o partido requeresse uma segunda votação. Corbyn tentou segurar-se, mas acabou forçado pela conferência do partido, em 2018, quando assumiu a posição de que negociaria um acordo de saída com a UE, mas manteria a opção de permanecer, num segundo referendum. Seus eleitores da classe trabalhadora tradicional viram esse movimento com uma negação da escolha democrática que haviam feito, o que levou ao racha na antes sempre confiável bancada pró Corbyn.

Outro importante fator explicativo foi o fator idade: o Labour venceu por largas margens no grupo etário de 18-49, mas perdeu por margens igualmente largas entre os eleitores mais idosos. Os jovens na Grã-Bretanha são pobres do tipo “sem-ativos” [ing. asset-poor:
[1]], têm empregos precários com poucos direitos trabalhistas, vivem em casa alugada e à mercê de senhorios inescrupulosos; estão sendo alijados das oportunidades de educação, num sistema que lhes cobra custos altíssimos; e já perderam quase todos os benefícios do estado de bem-estar. Responderam a uma visão de uma sociedade mais justa, mas as políticas do Labour, de reinvestir em projetos sociais e de infraestrutura apavoraram seus pais e avós, que acreditaram que tal política levaria o país à bancarrota. Muitos dos que sobrevivem com salários de fome também foram vítimas do medo de que, se os Conservadores perdessem, haveria um colapso econômico.

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Sinais antigos

O barco do Partido Labour naufragou, afinal, numa tempestade perfeita, mas as raízes da derrota vêm da vitória de Thatcher em 1979 e daquela sua reengenharia social depois da derrota da greve dos mineiros em 1984-85, que marcou a derrota do Labour organizado, pelo grande capital. Os 13 anos de governo Thatcherista depois daquele evento, destruíram a velha base industrial da Grã-Bretanha e a reestruturaram como uma distopia individualista, na qual só os cruéis e sanguinários prosperaram, e da qual foi erradicada a ideia de bem comum. Criaram as condições para que a direita do Labour se pusesse a ‘declarar’ que doravante seriam impossíveis as vitórias eleitorais que dependessem do voto das classes trabalhadoras; que, em vez disso, o partido precisava mudar-se, de sua base industrial no norte, para os condados mais classe média do sul da Inglaterra. O partido perdeu seus elos orgânicos com os trabalhadores pobres e tornou-se lar das classes profissionais liberais, cujos líderes eram tecnocratas especializados nas artes da mídia performática, todos amigos do proprietário-em-chefe da mídia no Reino Unido, Rupert Murdoch. Tony Blair foi aquela versão de líder anódino do Labour que trocou o corpo de eleitores dos trabalhistas, de assalariados, por classes aspiracionais. O norte da Inglaterra afundou no declínio econômico, sem empregos decentes para os que não pudessem emigrar, com dificuldades cada vez mais terríveis, com os benefícios sociais sempre cada vez mais reduzidos, e um vácuo político que foi preenchido pela direita xenófoba, que culpou sistematicamente os outros, primeiro os migrantes de pele escura, depois, também os brancos europeus. O pecado imperdoável de Jeremy Corbyn entre os Little Englanders,[2] ricos e pobres, foi ter rejeitado a noção de que vidas britânicas brancas seriam mais valiosas e superiores a todas as demais. A personalidade cosmopolita de Corbyn ofendeu-os em sua mais prezada crença, segundo a qual fossem quais fossem as circunstâncias individuais, nascer britânico sempre foi uma marca de vencedor na grande loteria da vida.

Os quatro anos de liderança de Corbyn sequer começaram a cuidar do deslizamento eleitoral e moral que dizimava a base de classe trabalhadora, ao norte. Corbyn foi constantemente boicotado por seus próprios partidários no Parlamento, e enfrentou ataques selvagens da mídia dominante, inclusive da BBC, que em seus bons tempos fazia-se passar por emissora pública e neutra, mas a qual, numa crise da classe governante, converte-se em emissora ‘faixa branca’, como aconteceu dessa vez. Nem Corbyn nem a maioria da Esquerda anteviu que uma feia guerra de classes chegara junto, como ameaça ao sistema. Todos esses acreditaram, como acreditaram durante a vida inteira, que a decência da política parlamentar britânica prevaleceria, e que o establishment acabaria por aceitar, com alguns resmungos, as regras do fair play. O partido fez campanha eleitoral atrapalhada e confusa como já fizera antes, enquanto os Conservadores construíram um maquinário eleitoral ‘matador’, usaram todas as artes mais pervertidas da propaganda, e impuseram com fúria a disciplina partidária. Corbyn foi líder moral, de uma estatura que o Partido jamais tivera antes, mas foi péssimo estrategista em combate; lutou heroicamente até o final, para acabar trucidado.
 

A Grã-Bretanha perderá sua pelagem europeia de estado do bem-estar liberal, e adotará modelo social ferozmente privatizado de anomia. O establishment britânico tentará neutralizar o Partido Labour, se possível sem destruí-lo; se não conseguir, o reduzirá a cacos, com a ajuda de seus muitos ambiciosos líderes. A ameaça de algum socialismo democrático foi contida por hora, mas eles não querem que o perigo, na próxima vez que surgir, chegue tão perto. Pressões, ameaças e castigos serão usados para desmoralizar quem se oponha. Se o novo Partido Trabalhista conta sobreviver, precisará de vontade de ferro e esperteza estratégica.

Um rei louro malvado subiu ao trono inglês e, enquanto a pesada névoa da derrota ainda paira pesada, podem estar-se delineando os contornos de uma batalha épica, em algum lugar, nas colinas  ao norte da Inglaterra.

NTs

[1] Asset poverty [provisoriamente “pobreza de ativos”. O pobre “sem-ativos” vive numa condição econômica e social mais persistente e mais prevalente que o pobre-sem-salário. Pobreza de ativos é conceito que descreve a situação de famílias sem acesso a recursos de riqueza suficientes para lhes garantir provisão das necessidades básicas por três meses (aqui traduzido. Mais em Wikipedia ).

[2] "Little Englander" foi expressão que designou originalmente uma ala do Partido Liberal que se opunha à expansão do Império Britânico no século 19, desejando que a “Inglaterra” se limitasse às fronteiras do Reino Unido [Mais em Wikipedia, aqui traduzido]..

 

 

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: http://tlaxcala-int.org/article.asp?reference=27663
Publication date of original article: 18/12/2019
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=27723

 

Tags: Eleições britânicas 2019Jeremy CorbynBoJoPartido LabourPartido ConservadorReino Unido
 

 
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