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 25/08/2019 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UNIVERSAL ISSUES 
UNIVERSAL ISSUES / A tortura de Julian Assange desmascarada
Date of publication at Tlaxcala: 06/08/2019
Original: Demasking the torture of Julian Assange
Translations available: Français  Italiano  Español 

A tortura de Julian Assange desmascarada

Nils Melzer

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

Esse artigo de opinião foi proposto pelo Professor Nils Melzer, Relator Especial das Nações Unidas para a Tortura, para publicação por ocasião do Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, 26 de junho de 2019, aos jornais Guardian, Times, Financial Times, Sydney Morning Herald, The Australian, Canberra Times, Telegraph, New York Times, Washington Post, Reuters e Newsweek. Todos se recusaram a publicá-lo.

 

Carlos Latuff

Sei que é possível que todos creiam que estou a enganar-me a mim mesmo. Como pode a vida numa embaixada, com um gato e um skate ser considerada tortura? Foi exatamente o que pensei quando Assange pediu proteção ao meu gabinete. Como a maioria das pessoas, eu tinha sido inconscientemente intoxicado pela incessante campanha de difamação realizada ao longo dos anos. Foi preciso uma segunda batida à minha porta para chamar a minha atenção, tanto eu relutava a ouvir. Mas logo que examinei os fatos deste caso, o que encontrei encheu-me de repulsa e incredulidade.

É verdade que, sim, claro que cheguei a acreditar que Assange tivesse, sim, cometido crime de estupro! Até que descobri que jamais houve sequer acusação contra ele, por ofensa sexual.

Fato é que, pouco depois de os EUA terem encorajado os seus aliados a encontrar razões para processar Assange, os procuradores suecos informaram a imprensa local de que ele era suspeito de ter violado duas mulheres. Curiosamente, as próprias mulheres nunca afirmaram ter sido violadas, nem tencionavam apresentar queixa por crime inexistente. Imaginem! Além disso, o exame forense de um preservativo apresentado como prova, alegadamente usado e rasgado durante a relação sexual com Assange, não revelou nenhum DNA presente, nem o de Assange, nem o da mulher ou de qualquer outra pessoa. Vá-se entender! Uma mulher chegou mesmo a dizer que só queria que Assange fosse testado para o HIV, mas que a polícia estava "muito animada para lhe pôr as mãos em cima". Outra vez, vá-se entender! Desde então, Suécia e Grã-Bretanha fizeram tudo o que estava ao seu alcance para impedir Assange de responder àquelas acusações sem, simultaneamente expor-se ao risco de extradição para os EUA e, por conseguinte, a um simulacro de julgamento seguido de condenação a pena de prisão perpétua. O último refúgio de Assange havia sido a Embaixada do Equador.

OK, pensei comigo, Assange deve ser hacker! Mas logo descobri foi que todas as revelações que Assange distribuiu foram-lhe vazadas livremente, sem que jamais houvesse qualquer acusação de ter, ele mesmo, hackeado qualquer computador. Na verdade, a única suposta acusação de hacking contra Assange trata de tentativa mal sucedida de hackear uma senha, tentativa que, se bem sucedida, poderia ter ajudado sua fonte a encobrir as próprias pistas. Em suma, uma cadeia especulativa e inconsistente de eventos isolados. Mais ou menos como tentar processar um motorista que tentou exceder o limite de velocidade, mas falhou porque seu carro não era suficientemente potente.

Pois bem, pensei comigo, pelo menos podemos ter a certeza de que Assange é espião russo, que interferiu nas eleições americanas e que causou mortes por negligência! Mas quanto a isso, só descobri que Assange repetidas vezes publicava informações verdadeiras de interesse público sem qualquer quebra de confiança, dever ou lealdade.

Sim! Assange denunciou crimes de guerra, corrupção e violações, mas não confundamos segurança nacional com impunidade governamental.

Sim! Os fatos que Assange revelou permitiram que os eleitores americanos tomassem decisões mais informadas. Mas... a democracia não exige precisamente isso?

Sim! Há discussões éticas a serem feitas, sobre a legitimidade de se publicarem documentos secretos não editados. Mas se houve realmente danos reais, por que nem Assange nem WikiLeaks foram alguma vez alvo de acusações penais ou de ações cíveis que exigissem justa indenização?

Então, já me via implorando para que fosse mesmo narcisista egocêntrico, andando de skate pela embaixada do Equador e espalhando fezes pelas paredes. Quanto a isso, tudo o que ouvi do pessoal da embaixada foi que os inevitáveis inconvenientes de Assange viver acomodado em gabinetes da Embaixada eram geridos com respeito e consideração mútuos.

Essa situação mudou depois da eleição do Presidente Moreno, quando de repente foi pedido ao pessoal da embaixada do Equador que encontrassem algo para comprometer Assange; quando não o fizeram, foram rapidamente substituídos. Moreno chegou mesmo a assumir a responsabilidade de espalhar a própria intriga, e de roubar de Assange, pessoalmente, o direito de asilo e a cidadania equatoriana, sem qualquer consideração ao devido processo legal.

Finalmente percebi que a propaganda havia-me tornado cego. Que Assange tinha sido sistematicamente caluniado para desviar a atenção dos crimes que o próprio Assange havia denunciado. Uma vez desumanizado pelo isolamento, pela zombaria e pela calúnia, como as bruxas que costumávamos queimar na fogueira, tornou-se fácil privá-lo de seus direitos mais fundamentais sem provocar incontrolável indignação pública em todo o mundo.

E assim se vai estabelecendo um precedente legal, que chega pela porta dos fundos de nossa complacência, que pode e será aplicada no futuro às revelações que apareceram no Guardian, no New York Times ou no ABC News.

Muito bem, tudo isso posto, vocês ainda podem perguntar “mas o que a calúnia teria a ver com tortura?” É pergunta perigosa, porque escorregadia. O que pode parecer simples "calúnia" no debate público, rapidamente se converte em "intimidação", se usada como arma contra quem não possa defender-se; e até em “perseguição”, se o Estado estiver envolvido. E acrescente-se agora a tudo isso a intencionalidade e o sofrimento severo que se provoca, e o resultado é, sim, tortura psicológica no sentido pleno da palavra.

Sim, viver numa embaixada com um gato e um skate pode parecer bom negócio, se se acredita em todas as demais mentiras. Mas quando ninguém se lembra da razão do ódio de que você é alvo, quando ninguém quer ouvir a verdade, quando nem os tribunais nem a mídia responsabilizam e cobram responsabilidades dos poderosos, nesse caso o seu refúgio já não passa de barco de borracha em piscina de tubarões, e nenhum gato nem skate salvarão sua vida.

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://bit.ly/2IP46IN
Publication date of original article: 26/06/2019
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=26737

 

Tags: Julian AssangeWikiLeaksNils MelzerTorturaDireitos humanosEUA-Reino Unido-Suécia
 

 
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