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 15/10/2019 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 LAND OF PALESTINE 
LAND OF PALESTINE / Os bastidores econômicos do Acordo do Século
Date of publication at Tlaxcala: 01/07/2019
Original: The economic entrails at the heart of the ‘Deal of the Century’

Os bastidores econômicos do Acordo do Século

Alastair Crooke

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Mandinga

 

 

Não há novidade alguma em dizer que o ‘Acordo do Século’ é – e sempre foi – projeto, na essência, econômico. Na verdade, parece que a Casa Branca considera as ramificações políticas do tal ‘acordo’ como pouco além de consequências inevitáveis de uma arquitetura a priori econômica, com processo já em andamento.


Em outras palavras, o que se busca é que os fatos econômicos em campo modelem o resultado político – uma paisagem política atenuada que, seja como for, foi minimizada pela remoção preventiva, obra de Trump, de peças chaves de qualquer alavancagem que favorecesse os palestinos.

O arrocho financeiro final contra os palestinos está bem atestado. Por outro lado, a Autoridade Palestina (historicamente dependente da subvenção saudita) vai suavemente deslizando rumo à bancarrota; ao mesmo tempo, Gaza é mantida em dependência virtual a mais abjeta, mediante as subvenções do Qatar que gotejam sobre Gaza, com permissão dos israelenses – com as dimensões dessa derradeira ‘linha de socorro’ mensal cuidadosamente ajustada por Israel conforme o que o estado judeu defina como as normas ‘de boa conduta’ recomendáveis do Hamás (quase sempre).

Assim, por um lado, há o sítio financeiro que visa a manter os palestinos rendidos ao ‘pacote de qualidade de vida’ que há quem suponha que o ‘acordo’ gerará —, do qual a reunião no Bahrain, ainda esse mês, será a fachada comercial. Mas há outro lado menos reconhecido desse Acordo, que apareceu resumido no título de um artigo de McClatchy: Casa Branca vê o fórum egípcio de energia como um ‘mapa do caminho para a paz do Oriente Médio’.

Em artigo posterior, McClatchy publica o ‘mapa do caminho’ norte-americano de energia no Mediterrâneo Oriental, recentemente liberado para a opinião pública. E aqui se esclarece o quadro completo, incluindo o ‘fórum do gás’ patrocinado pelos EUA. “Segundo três altos funcionários do governo, aquele mapa que recentemente teve o sigilo levantado, obtido por McClatchy – motivou membros do Conselho de Segurança Nacional [dos EUA] a priorizar a formação de um fórum de gás no Mediterrâneo Oriental, que impulsionaria e simultaneamente entrelaçaria as economias de vários países que durante décadas estiveram em oposição”.

É preciso traduzir o eufemismo ‘impulsionaria e simultaneamente entrelaçaria’. Essa expressão diz que integrar Israel na esfera econômica regional é operação que se faz, principalmente, pela energia. Mas o objetivo não é integrar só Israel nessa esfera econômica egípcia, mas também tornar a Jordânia, a Autoridade Palestina (e talvez também o Líbano) parcialmente dependentes da energia israelense – ao lado de parceiros putativos, Itália, Grécia e (a parte ligada à Grécia) de Chipre — com os EUA oferecendo seu expertise, para dar corpo à estrutura do ‘fórum do gás’.

Esse é o coração do ‘acordo’. Não só a normalização política de Israel na região, mas a construção da dependência econômica de egípcios, palestinos, jordanianos (e possivelmente – mas não muito provavelmente – do Líbano) conectando todos esses países ao ‘eixo’ de geração-distribuição do gás norte-americano no Mediterrânio Oriental.

Fonte: McClatchy


E há uma inevitável subtrama em tudo isso (como McClatchy observa):

“Nesse front, o governo beneficia-se do apoio de aliados improváveis. Eliot Engel, presidente Democrata da Comissão de Relações Exteriores da Câmara de Deputados (...) disse que o projeto do fórum do gás mediterrâneo era oportunidade estratégica para que os EUA bloqueassem os esforços dos russos para influenciar a questão dos recursos locais de energia. “Creio que [o presidente russo Vladimir] Putin e a Rússia não podem nem conseguirão controlar a situação” – afirmou Engel”.


Assim sendo, o governo dos EUA está ativo em esforços bipartidários para bloquear esforços da Rússia na região: uma é a pauta para promover parcerias de energia no Mediterrâneo Oriental; e há outra pauta paralela, que ameaça com sanções empresas europeias que apoiam a construção do gasoduto Ramo Norte 2 que leve o gás russo até a Alemanha.

Mas há dois pontos nos quais tropeça, obviamente, essa noção de ‘barrar’ a Rússia, ao mesmo tempo em que se tenta normalizar Israel, em termos econômicos, na região.

O primeiro ponto, como observa Simon Henderson do Washington Institute, é a noção de que a geologia daquela área poderia contribuir a favor da Europa, ou até substituir o gás russo; essa noção “parece pouco crível, até inverossímil, considerado o estágio atual das descobertas. Vários novos campos dos mais gigantes, como o Leviathan ou o campo Zohr no Egito, teriam de descobertos, antes de se poder aceitar como verossímil alguma ‘nova’ realidade”:

“A ideia de que a energia do Mediterrâneo Oriental poderia impactar o equilíbrio da energia europeia, de tal modo que abalasse a fatia russa daquele mercado, é delirante – a sede da Europa por gás é tão gigante, que até imaginar aquela possibilidade já é delírio. E a capacidade da Rússia para fornecer todo aquele gás é tão imensa que também é delírio imaginar que se possa suprir todo aquele gás, com as reservas limitadas que se conhecem até agora” – disse Henderson. – “Ter esperança de encontrar gás é muito diferente de encontrar gás”.


Em resumo, o ‘eixo’ egípcio para exportação de gás só pode ‘funcionar’, no pé em que estão as coisas hoje, se se juntarem vários dos pequenos campos descobertos no Mediterrâneo Oriental – e acrescentar-se grande contribuição israelense – levados por gasodutos até as plantas egípcias de liquefação de gás, próximas de Port Said e Alexandria. Mas a disponibilidade global de Gás Natural Liquefeito é alta, os preços são tremendamente competitivos, e não é absolutamente ‘garantido’ que ‘o eixo’ egípcio venha a ser comercialmente viável.

E aqui está a parte mais difícil: a geopolítica. Qualquer movimento que vise a integrar Israel naquela região sempre será movimento sensível. Assim, por mais que funcionários dos EUA tenham-se mostrado otimistas quanto a o Egito realmente liderar o próprio ‘fórum do gás’, depois da reunião entre os presidentes Sisi e Trump, em abril, o Egito – um dos pilares do plano dos EUA para confrontarem o Irã –, imediatamente depois da visita retirou-se da aliança militar estratégica que o governo Trump tentava construir contra o Irã: a Middle East Strategic Alliance (MESA), para grande consternação dos norte-americanos.

Henderson observa que, quando se trata de acordos de energia, nada consegue reduzir a resistência popular contra Israel, sequer a ideia de haver um tratado. Apesar de qualquer ‘tratado de paz’ que se invente, muitos jordanianos continuam a se opor à ideia de usar o gás do campo (israelense) Leviathan, para gerar energia em grande escala a partir do próximo ano. Para tentar amainar a ira popular, Amman tem usado as expressões “gás do norte” ou “gás norte-americano”, destacando o nobre papel dos EUA na produção do gás.

Mas há também o outro lado da questão: bem claramente, o Egito não quer ser parte de uma aliança liderada pelos EUA contra o Irã (MESA). Simultaneamente porém, por qual razão o Egito – ou a Jordânia ou qualquer outro membro do ‘fórum do gás’ – se interessaria por se alinhar estreitamente aos EUA numa estratégia anti-Rússia para a região?

É fato que o Egito assinou inicialmente como membro do projeto dos EUA para seu ‘eixo do gás’. Mas ao mesmo tempo o Egito também está assinando um contrato de $2 bilhões para comprar mais de 20 jatos de combate Sukhoi SU-35 russos. Algum ‘parceiro’ de algum ‘eixo’ de gás dos EUA acredita mesmo que haveria ‘eixo’ egípcio capaz de disputar espaço com o gás russo na Europa?

Provavelmente não há. Porque, no final das contas, a mera ideia de que um ‘eixo’ putativo de energia consiga ‘impedir a Rússia’ já é fantasiosa que chegue. A União Europeia, por exemplo, não dá qualquer sinal de interesse no muito discutível gasoduto de $7 bilhões apoiado pelos EUA para conectar o Mediterrâneo Ocidental, por Chipre, à Grécia. O solo submarino é muito problemático e a costa, alta demais.

Claro que Israel também tem esperanças de descobrir mais gás. Mas o prazo final para propostas relacionadas a 19 dos seus blocos offshore acaba de ser adiado para meados de agosto – o que sugere pouco interesse dos investidores. Por enquanto, as majors do petróleo parecem mais interessadas pelos blocos cipriotas, no que tenha a ver com apresentar propostas.

Mas a política novamente se impõe: ser parte do ‘fórum do gás’ do qual o governo de Nicosia (ligado à Grécia) é membro-chave coloca o fórum e seus membros numa rota de colisão potencial com a Turquia, que não abrirá mão das próprias ambições sobre a bacia do Mediterrâneo Oriental (e acaba de anunciar que estabelecerá bases navais e aéreas no norte de Chipre). Tampouco o Líbano desistirá. Sisi e Erdogan são separados por forte antipatia pessoal, sim, mas e quanto aos demais? Aceitarão ser arrastados para esse tipo de disputa?

Seja como for, a Rússia não dá sinais de grande interesse nas possibilidades produtivas do Oriente Médio Mediterrâneo. Em vez disso, os russos mantêm-se focados num corredor-gasoduto do Irã e Iraque até a Europa, via Turquia ou, eventualmente, a Síria.

Em resumo, pois, a parte do ‘Acordo’ Kushner-Trump que tenta integrar Israel à economia regional da energia parece estar sendo recebida por todos os lados com ceticismo e desconfiança, tanto quanto as demais partes do ‘Acordo’.







Courtesy of Tlaxcala
Source: https://www.strategic-culture.org/news/2019/06/25/economic-entrails-at-heart-of-deal-century/
Publication date of original article: 25/06/2019
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=26413

 

Tags: Acordo do SéculoPlano Trump/KushnerPalestina/Israel
 

 
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