TLAXCALA تلاكسكالا Τλαξκάλα Тлакскала la red internacional de traductores por la diversidad lingüística le réseau international des traducteurs pour la diversité linguistique the international network of translators for linguistic diversity الشبكة العالمية للمترجمين من اجل التنويع اللغوي das internationale Übersetzernetzwerk für sprachliche Vielfalt a rede internacional de tradutores pela diversidade linguística la rete internazionale di traduttori per la diversità linguistica la xarxa internacional dels traductors per a la diversitat lingüística översättarnas internationella nätverk för språklig mångfald شبکه بین المللی مترجمین خواهان حفظ تنوع گویش το διεθνής δίκτυο των μεταφραστών για τη γλωσσική ποικιλία международная сеть переводчиков языкового разнообразия Aẓeḍḍa n yemsuqqlen i lmend n uṭṭuqqet n yilsawen dilsel çeşitlilik için uluslararası çevirmen ağı

 19/09/2019 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 UMMA 
UMMA / Sobre a história secreta da derrota dos EUA na Síria
Entrevista com Sharmine Narwani (1 & 2)
Date of publication at Tlaxcala: 01/05/2019
Original: Reporter Sharmine Narwani on the secret history of US defeat in Syria (1& 2)

Sobre a história secreta da derrota dos EUA na Síria
Entrevista com Sharmine Narwani (1 & 2)

Patrick Lawrence

 

Depois de anos cobrindo o "campo de batalha principal na Terceira Guerra Mundial", Narwani diz que tudo o que você acha que sabe está errado

Quando a guerra na Síria foi recentemente declarada decidida, havia poucos correspondentes ou testemunhas a quem recorrer para um olhar confiável sobre o que aconteceu naqueles oito anos de conflito. Dentre as poucas pessoas capazes de responder as minhas muitas perguntas, sempre contei com Sharmine Narwani, cujo trabalho há muito tempo considero distintamente meticuloso e honesto em meio a uma cobertura que – na opinião dela e também na minha opinião – atingiu um novo patamar (baixo), com o colapso dos padrões profissionais do jornalismo investigativo e da ética.

“O conflito sírio constitui o principal campo de batalha em uma espécie de Terceira Guerra Mundial”, disse ela durante nossa longa troca de mensagens. “As guerras mundiais foram, em essência, guerras de grandes potências, depois das quais a ordem global reorganizou-se de algum modo, e estabeleceram-se novas instituições globais.” Isto, em linhas gerais, é o que Narwani vê diante de nós, agora que fracassou a última operação de “mudança de regime” orquestrada pelas potências ocidentais.

Narwani e eu conduzimos nossa conversa por e-mail, Skype e WhatsApp durante várias semanas no final de março e início de abril. Nessa primeira parte (de duas), Narwani disseca o papel de vários grupos de ação e de influência – jihadistas radicais e as nações que os apoiaram, a imprensa ocidental, ONGs – interessados em prolongar uma guerra que, na opinião dela, poderia ter terminado há muito tempo.

Essa é a versão editada, só para evitar repetições devidas a idas e vindas sobre assuntos muito próximos. A 2ª parte está em preparação.

Christopher Weyant, The Hill, EUA


Patrick Lawrence: Você voltou da Síria semana passada. – E esteve lá várias vezes no ano passado. Foram meses importantes, porque são os primeiros depois do fim da guerra. O que você viu?

Sharmine Narwani:
Ano passado estive na Síria em maio e junho, nas semanas que antecederam a batalha pelo sul da Síria. Visitei Daraa, Suweida e Quneitra, as três províncias do sul mais críticas para a batalha que aconteceu em seguida próxima batalha. Foi experiência impressionante. Para mim, serviu para pôr fim a vários mitos e ideias erradas que eu ainda tinha sobre o conflito.

Uma dessas ‘descobertas’ foi a Al-Qaeda, que lá estava em campo, ativa na luta em Daraa, indistinguível dos grupos militantes apoiados pelo Ocidente em todos os principais teatros do mundo. Outro choque foi quando entrevistei ex-combatentes da Frente Al-Nusra e do Exército Sírio Livre (ESL) perto da fronteira com o Líbano: disseram que seus salários foram pagos pelos israelenses durante todo o último ano antes de se renderem, cerca de US $ 200 mil por mês, de Israel, só para militantes na cidade de Beit Jinn.

A batalha do sul foi muito rápida. Em seguida todo o foco mudou para o norte – para Idlib, onde os militantes mais extremistas reuniram-se na última fortaleza que lhes restava; e no nordeste, onde as tropas americanas começaram uma retirada lenta, ainda sem devolver ao estado sírio os territórios ocupados.

Semana passada, visitei Idlib para ver o que poderia descobrir sobre a próxima batalha, mas nada mudou muito. Antes terá de haver uma decisão política. Há quem espere que aconteça depois que Rússia, Irã e Turquia se encontrarem no final de abril. Idlib é diferente de Daraa, porque 80% dos militantes são da Al-Qaeda, e o restante são seus aliados. Mas no momento a Turquia e as potências ocidentais – inclusive EUA – continuam a proteger a Al-Qaeda.

Patrick Lawrence: O que você tem de mais recente em esforços de reconstrução, planos para uma nova constituição e um acordo político? Dizem que Rússia, Irã e Turquia estão tentando estabelecer um mecanismo constitucional de algum tipo na ONU. A Rússia e a Turquia concluíram com a Alemanha e a França planos de reconstrução – não que tenhamos visto uma palavra sobre isso na imprensa americana. Para onde tudo isso está indo, na sua opinião?

Sharmine Narwani:
Precisamos colocar o que é comumente chamado de “processo político” sírio em perspectiva. Síria, Rússia e Irã venceram. A Turquia está prejudicada pelas perdas na Síria e está buscando desesperadamente um novo equilíbrio geopolítico. A França e a Alemanha estão muito preocupadas com mais refugiados – e extremistas – inundando suas fronteiras, e estão dispostos a romper com os objetivos dos EUA na Síria sobre esta questão.

Em suma, o “processo político” é o que Síria, Rússia e Irã querem que seja. Suas reuniões em Astana [capital do Cazaquistão, onde uma série de negociações de paz ocorreram] desmilitarizaram os pontos críticos na Síria e os colocaram de volta sob o controle do governo. E suas reuniões em Sochi [a cidade turística russa] conseguiram reunir sírios de todas as orientações, numa sala conversando. Então, esses três países vão descobrir o processo constitucional. Apenas espere que seja principalmente sob os termos do vencedor. Grandes concessões aos interesses ocidentais – em troca de fundos de reconstrução – serão improváveis, porque todo o Oriente Médio agora sabe que os EUA não cumprem seus acordos. A Síria não está apostando em fundos ocidentais, ao contrário do que sugerem os relatórios de mídia.

Prevejo que o final do jogo levará a Síria de volta para onde estava em 2011, logo depois de Assad ter feito reformas sem precedentes que a comunidade internacional decidiu ignorar.

Patrick Lawrence: Essa é uma observação muito interessante. Você sugeriu anteriormente que as negociações de paz de 2016 em Genebra levariam àquela mesma coisa. Muito poucas pessoas no Ocidente sabem que Assad propôs numerosas reformas em resposta à inquietação inicial em 2011. Algumas delas são impressionantemente liberais, por qualquer padrão que se use. Por favor, nos fale sobre isso. Por que você acha que, agora, as coisas voltarão às propostas que Assad tinha para 2011?

Sharmine Narwani:
Quando o governo sírio introduziu reformas em 2011 e 2012, a única coisa que realmente ouvimos do ocidente foi que seria “tarde demais” e que seriam “reformas de fachada”. Mas foram reformas amplas e significativas. A carnificina teria sido evitada, se tivesse havido tempo e espaço para que o país se apossasse daquelas reformas.

A partir de 2011, Assad emitiu decretos suspendendo quase cinco décadas de leis de emergência que proibiam reuniões públicas. Foi grande coisa, já que outros líderes árabes estavam fazendo o oposto em resposta às suas respectivas “insurreições”. Outros decretos incluíam o estabelecimento de um sistema político multipartidário, limites de mandato para a presidência, a suspensão dos tribunais de segurança do Estado, libertação de prisioneiros, acordos de anistia, descentralização para autoridades locais, deposição de figuras políticas controversas, introdução de novas leis de mídia que proibiam a prisão de jornalistas e maior liberdade de expressão, investimento em infraestrutura, moradia, fundos de pensão, estabelecimento de diálogo direto entre populações e autoridades governamentais , estabelecendo uma comissão para dialogar com a oposição – muitos dos quais rejeitaram a oferta.

Você poderia sentir essas reformas se desdobrando em Damasco no começo de 2012. Eu dirigia por toda a cidade de Beirute, ligava para telefones celulares pessoais de figuras da oposição, visitava pessoas em casa, conversava com pessoas comuns sobre política. Podia acessar livremente o Twitter e o Facebook na Síria – plataformas que passaram anos proibidas.

Patrick Lawrence: Qual foi a reação entre os sírios? Houve de tudo, compreendo. Você escreveu que alguns dissidentes sírios também criticaram essas reformas.

Sharmine Narwani:
Inicialmente, muitas pessoas estavam céticas sobre as reformas. As narrativas contra o estado sírio eram muito difundidas, o que confundia as pessoas, apanhadas entre informações dissonantes. A maioria das figuras da oposição doméstica estava certa de que Assad partiria em poucas semanas, o que comprometeu a disposição para dialogar com o governo ou apoiar publicamente as reformas. Mas mesmo assim a oposição – muita gente da oposição passara anos nas prisões sírias – rejeitou a intervenção estrangeira, a imposição de sanções e a militarização do conflito.

No início de 2012, os dissidentes que conheci zombavam das reformas, mas depois que Damasco foi destruída naquele verão, sob bombardeio massivo, percebi mudança muito marcante naquelas posições.

Em termos da população em geral, acho que os sentimentos foram divididos – não tanto quanto às reformas propriamente ditas, mas sobre se realmente seriam implementadas. Modo de avaliar o apoio público seria examinar quantos sírios compareceram ao referendo constitucional. Muitos boicotaram, mas a taxa de participação foi de quase 60%. Eu diria que uma maioria pequena, mas mesmo assim maioria, dos sírios estava disposta a confiar nas reformas.

Patrick Lawrence: Qual é a sua avaliação do plano dos EUA de se retirarem da Síria? Acho que você sugeriu, em algo que escreveu há algum tempo, que os EUA efetivamente perderam a Síria para a Rússia desde as primeiras missões aéreas russas em setembro de 2015.

Sharmine Narwani:
Sim, em setembro de 2015, os EUA perderam o conflito para a Rússia e seus aliados. O motivo é muito simples. A intervenção russa proporcionou ao exército sírio e aos seus aliados terrestres a cobertura necessária para fazer o seu trabalho de forma eficaz. Quem domina o ar e o solo vence a guerra.

Para ser justo, também parecia altamente improvável que Obama estivesse preparado para transformar a Síria em guerra aérea total dos EUA. Acho que gostou de fazer uma “mudança de regime” daquele modo passivo-agressivo que os democratas fazem: toda “intervenção humanitária” e marketing e sons tenebrosos. Mas o ganhador do Prêmio Nobel da Paz não colocaria aviões pilotados pelos EUA no espaço aéreo dominado pelos russos sobre a Síria de maneira significativa – não depois do Iraque e do Afeganistão, e não depois que os russos e chineses bloquearam a rota de Obama para a guerra, vetando todas as resoluções da ONU que pudessem legitimar a intervenção.

Patrick Lawrence: Até que ponto você acha que a Síria fez a posição dos EUA no Oriente Médio mudar, como um todo? Parece que estamos saindo de uma passagem importante na longa história do envolvimento americano na região.

Sharmine Narwani:
Os EUA já estavam saindo do Oriente Médio antes das chamadas “revoltas árabes” começarem. Quem quer que no aparato de segurança nacional dos EUA tenha tomado a decisão de permanecer por perto e redirecionar essas revoltas contra os adversários regionais cometeu um erro colossal. Ainda espero escrever sobre isso um dia porque é importante. Acredito que o conflito sírio constitui o principal campo de batalha, numa espécie de Terceira Guerra Mundial.

As guerras mundiais foram, em essência, guerras de grandes potências, após as quais a ordem global reorganizou-se um pouco e novas instituições globais foram estabelecidas.

Olhe ao seu redor agora. Tivemos uma remodelação no equilíbrio de poder nos últimos anos, com a Rússia, a China, o Irã em ascensão, e a Europa e a América do Norte em declínio. Isso não quer dizer que Washington, Londres ou Paris não tenham alavancas para operar: claro que têm e operam.

Mas foi na contramão do conflito sírio que se travou uma grande batalha de poder. Na sequência, novas instituições internacionais de finanças, defesa e formulação de políticas nasceram ou se transformaram.

Não falo apenas do fortalecimento dos BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul], da Organização de Cooperação de Xangai, do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, da União Euroasiática etc. Quero dizer, as redes mundiais também estão mudando de mãos.

O que acontecerá com as rotas de navegação controladas pelo Ocidente agora que a Ásia começou a construir rotas terrestres mais rápidas e baratas?

O sistema SWIFT [mensagens para compensação de ordens bancárias] sobreviverá, quando uma alternativa for acordada para contornar as sanções dos EUA em todos os lugares? Existem muitos exemplos dessas mudanças.

Não estou querendo dizer que todas essas mudança devam-se a os eventos na Síria. Estou dizendo que a Síria desencadeou a batalha entre grandes potências que liberou mais rapidamente e com maior eficiência, a energia para construir essa nova ordem.

Tenha em mente que a Terceira Guerra Mundial em nenhum caso será guerra convencional. Será sempre guerra ‘híbrida’, que se expandiria em várias frentes – não apenas eventos de mudança de regime, mas também pressões financeiras, sanções, propaganda, atividades de subversão política, desestabilização, aumento do terrorismo, lutas ‘por procuração’ e assim por diante.

Mas a batalha pela hegemonia global realmente começou a se desenrolar na Síria – quando russos, iranianos e chineses decidiram traçar uma linha e lutar. Depois disso, o mundo mudou.

Patrick Lawrence: Como você acabou de sugerir, a Síria há muito parece ser um tipo diferente de guerra, um novo tipo – uma guerra travada com imagens, informações e desinformação, retratos verdadeiros e falsos de eventos, pessoas, organizações e assim por diante. Baseado no que você escreveu há muitos anos – e de dentro da Síria, no teatro de combate – eu acho que você concorda com isso.

Sharmine Narwani:
De certa forma, a Síria nunca foi tão diferente. Todas as guerras ocidentais modernas foram combatidas com imagens manipuladas e desinformação. Demos o nome de “propaganda” e acusamos os nazistas e os soviéticos de fazê-lo, mas os EUA o fazem melhor do que ninguém. É literalmente a principal ferramenta no kit militar dos Estados Unidos: caso contrário, os americanos nunca aceitariam guerras intermináveis. Havia leis que proibiam o governo dos EUA de fazem propaganda para o povo americano. O governo Obama desfez muitas dessas barreiras legais.

Se você tiver uma chance de ler o manual de Guerra Não Convencional das Forças Especiais dos EUA (ing.), você verá o quanto a propaganda é fundamental para os esforços a que os EUA estão dedicados para manter a hegemonia. Tudo começa e termina com “definição de cena”; e “percepção oscilante” para preparar uma população para apoiar a invasão, ocupação, guerras de drones, “intervenções humanitárias”, rebelião, mudança de regime.

Não foi diferente na Síria. O governo dos EUA impôs narrativas-chave desde o primeiro dia – que Assad estava matando indiscriminadamente civis numa revolução popular e pacífica. Não. 88 soldados foram mortos em toda a Síria no primeiro mês de protestos. Você nunca ouviu isso na mídia ocidental. Essa informação teria alterado sua percepção do conflito.

A oposição síria costumava queimar pneus no topo dos edifícios para simular bombardeios para câmeras de TV. Você soube disso?

A única razão pela qual se pode ver a Síria, hoje, como “tipo diferente de guerra” foi que tivemos o Twitter e o Facebook e mídias alternativas abrindo buracos, todos os dias, na narrativa de Washington. E porque, claro, os sírios tiveram a audácia de resistir por oito anos. Ninguém consegue manter ativa uma mesma mentira por oito anos. A verdade escapa, esgueira-se. As pessoas percebem.

 

 

http://tlaxcala-int.org/upload/gal_20197.jpg

Vladimir Kazanevsky, Ucrânia

Patrick Lawrence: Vamos nos concentrar em alguns tópicos que você apontou como fatores-chave no prolongamento e, como você diz, na “armação” do conflito. A primeira delas é a questão da contagem de baixas. Num de seus artigos você chamou de “o circo da contagem de baixas”. Você pode resumir o que descobriu e como mostrou tão completo desacordo com os relatórios oficiais?

Sharmine Narwani:
Investiguei pela primeira vez o número de mortes na Síria 10 meses depois de iniciado o conflito. Naquele mês, janeiro de 2012, o número de vítimas da ONU na Síria era de cerca de 5.000 mortos. A Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre a Síria divulgou seu primeiro relatório dois meses depois, em março, afirmando que 2.569 forças de segurança sírias haviam sido mortas no primeiro ano. Nessa mesma ocasião ficamos sabendo que metade dos mortos não eram civis nem da oposição. Metade dos mortos sírios eram forças de segurança. As mesmas forças de segurança sírias que me informaram que a oposição estava, sim, armada, treinada, organizada e era muito, muito letal.

E quanto à outra metade do total de mortes – as restantes 2.431 baixas? Descobri que eram uma mistura de civis pró-governo, civis pró-oposição e homens armados de oposição em trajes civis. Os “rebeldes” não estavam usando equipamento militar. Assim, era impossível distingui-los dos civis. A mídia tradicional simplesmente não queria saber dessas coisas óbvias. Nada perguntaram, nada investigaram.

Um ano depois, uma das principais organizações que divulgavam números de vítimas da oposição, o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, que a mídia ocidental cita o tempo todo, me disse que era difícil diferenciar os rebeldes dos civis, porque “todos se misturavam, para se esconder”. Em segundo lugar, o número de mortos na Síria aumentou dez vezes, e a ONU divulgou uma análise de baixas que incluiu a informação de que 92,5% dos mortos eram do sexo masculino. Isso não é indicativo confiável de baixas numa “população civil”.

O ponto é: Por que não havia um único jornalista lá fora perguntando “Quem está matando e quem está morrendo?” Se eles tivessem feito essa pergunta elementar, a maneira como vemos esse conflito teria sido muito, muito diferente. Houve, no mínimo, paridade no assassinato, o que também significa que a resposta do governo sírio aos opositores não foi absolutamente desproporcional.

Patrick Lawrence: Outra área de interesse é a questão de quando e como a oposição – supostamente desarmada no início – chegou a estar armada. A questão das respostas proporcionais à violência tem a ver com isso, como você acabou de sugerir.

Sharmine Narwani:
Elementos da oposição foram armados desde o início do conflito. Temos evidências visuais e de depoimentos, de esconderijos de armas, homens armados infiltrando-se pela fronteira libanesa e homens armados “estrangeiros” que aparecem em Daraa, a cidade [no sul da Síria] onde os protestos se manifestaram pela primeira vez. Nos primeiros dias, era difícil provar isso, porque foram feitos esforços para esconder a evidência de que a oposição tinha armas – e quem falasse sobre isso era imediatamente marginalizado. Mas então a Liga Árabe (que havia suspendido a Síria e, portanto, era vista como um órgão imparcial) enviou uma equipe de observadores que produziu um relatório impressionante – sobre o qual você não leu na imprensa ocidental. Essa missão de observação detalhou os bombardeios e o terrorismo da oposição e ataques a infraestruturas e civis.

Também sei que a oposição estava armada desde o início [março de 2011] por causa de minha própria investigação e descoberta de que 88 soldados sírios foram emboscados e mortos em toda a Síria no primeiro mês do conflito…. Tenho arquivados esses nomes, idade, posto nas fileiras militares, locais de nascimento – tudo. Então, em junho de 2011, mais de 100 soldados sírios foram assassinados em Jisr Shughour, na província de Idlib, muitos deles degolados, o que já ninguém poderia contestar. Mesmo assim continuamos a ouvir da mídia, ainda por muito tempo, que “a oposição está desarmada e é pacífica”.

Mas você perguntou sobre a proporcionalidade. Eu pergunto: e se de repente atiradores emboscados começassem a matar soldados norte-americanos, e matassem 88. Depois, em marços, outros 100 soldados são mortos só num dia, metade deles degolados. O que seria resposta “proporcional” para você? O que quero dizer é que a questão da proporcionalidade muda muito. Não há só uma proporcionalidade aceitável.

Patrick Lawrence: A próxima pergunta é óbvia. Quem armou a oposição? Somos capazes de dizer?

Sharmine Narwani: Hoje sabemos que os EUA, o Reino Unido, a França, o Catar, a Arábia Saudita, os EAU e a Turquia são os principais países que armaram, treinaram, financiaram e equiparam os militantes e encontraram maneiras intricadas para evitar a detecção, especialmente no início. Armas entraram na Síria de todos os cinco países fronteiriços em diferentes partes deste conflito – Líbano, Jordânia, Turquia, Iraque, Israel – mas eu diria que a maioria das armas provavelmente chegou via Turquia, transferências de armas que foram muito coordenadas com seus da Turquia na Otan.

Patrick Lawrence: Quando, por que e como grupos como o al-Nusra se envolveram? Quais foram ou são suas relações com o ‘Exército Sírio Livre’ (ESL) e as ‘Forças Sírias Democráticas’?

Sharmine Narwani:
A Frente Nusra é a franquia síria da Al Qaeda. Bombardeios em Damasco em dezembro de 2011 e janeiro de 2012 foram as primeiras ações atribuídas publicamente à Al Qaeda, e logo foram seguidas por um vídeo viral do chefe da Al Qaeda, Ayman al-Zawahiri, instando os colegas jihadistas a invadirem o teatro sírio. Não sei se você já ouviu falar do documento desclassificado da Agência de Inteligência da Defesa de 2012 sobre a Al Qaeda? Este artigo mostra que os EUA e seus aliados identificaram a Al Qaeda como a força de combate mais forte e mais capaz na Síria contra o governo de Assad; que esses extremistas tinham a intenção de criar um “principado salafista” na fronteira sírio-iraquiana; e que os EUA e seus aliados basicamente apoiavam isso. Muitos tentaram minimizar esse documento, mas Obama demitiu Michael Flynn como chefe da Agência de Inteligência da Defesa (DIA), e Flynn disse que o documento estava correto, que os EUA haviam “intencionalmente” apoiado todo esse inferno.

O ESL foi shitshow desde o início – nenhuma autoridade central, nenhuma cadeia de comando, nenhuma coesão, etc. “ESL” passou a ser usada como sigla para qualquer militante que combatesse o exército sírio. Muitos lutadores do ESL se juntaram à Al Qaeda e ISIS durante este conflito. O ESL frequentemente dava ou vendia suas armas fornecidas pelos EUA à Al Qaeda – e o Pentágono sabia disso o tempo todo. Quando perguntei a um porta-voz do CENTCOM [Comando Central dos EUA] em 2015 por que tantas armas dos Estados Unidos fornecidas a seus combatentes estavam aparecendo nas mãos da Al Qaeda, ele disse: “Não ‘comandamos e controlamos’ essas forças. Nós só os ‘treinamos e equipamos’.” Esse é o pano de fundo real.

Durante minha viagem a Daraa no ano passado, pouco antes da batalha para expulsar militantes do sul da Síria, descobri que a Al Qaeda estava em todas as principais áreas estratégicas ao lado das 54 facções militantes apoiadas pelo Ocidente que se preparavam para combater o exército sírio. Se você olhasse para qualquer mapa dos think tanks dos EUA antes da grande batalha pelo sul, você teria visto três cores: vermelho para o Exército Árabe Sírio; verde para os “rebeldes”; e preto para o ISIS. Então, onde estava a Al Qaeda? Eles estavam misturados aos “rebeldes” das áreas verdes. Assim a Al-Qaeda tornou-se indistinguível das forças que os EUA apoiaram neste conflito.

Patrick Lawrence: Você tentou, a certa altura, que o Departamento de Estado fornecesse um nome, que fosse, um só, de grupo de “rebeldes moderados”. Não sabiam ou não quiseram informar, como você relatou. Por favor, conte-nos sobre esse episódio.

Sharmine Narwani:
Eu costumava pedir ao Departamento de Estado que nomeasse os chamados “rebeldes moderados” que os EUA apoiavam no conflito sírio. Jamais responderam, alegando que as informações poderiam comprometer a segurança dos grupos rebeldes.

Aqui está o meu argumento: A razão pela qual os EUA não nomearão os grupos militantes que financiaram e armaram é porque, no momento em que o fizerem, encontraremos vídeos de atrocidade e filmes feitos por esse grupo. Os problemas de responsabilidade são enormes. Mas a questão principal é que os EUA basicamente armaram grupos extremistas no conflito sírio e não precisam que o público saiba quem são essas pessoas.

Patrick Lawrence: Que grau de apoio para o governo de Assad você encontrou? E de que setores da população síria?

Sharmine Narwani:
Primeiro de tudo, deixe-me dizer que Síria não é Tunísia ou Egito – onde as populações tinham conexão praticamente zero com seus líderes, fosse no front doméstico fosse em termos de visão de mundo. O estado sírio não é rico, mas garante serviços básicos, além de educação, saúde, alimentação básica para a população. E o estado sírio compartilha em grande parte sua visão de mundo, com a população – os sírios são anti-imperialistas, antissionistas, pela resistência contra poderes intervencionistas, pró-independência, etc.

Em suma, Assad, sobretudo nos principais centros urbanos, de Aleppo e Damasco, sempre conservou o apoio de partes muito importantes do eleitorado sírio – empresários, elites sociais, forças armadas (muito significativas), os grupos minoritários (alauitas, cristãos, drusos, xiitas, etc.) e os sunitas seculares. O partido [governante] Baath tem cerca de 3 milhões de membros, a maioria dos quais são sunitas. Essa é parte importante do apoio com que Assad conta. Então, à medida que as condições de vida se deterioravam e a violência política aumentava, muitos opositores fugiram para áreas controladas pelo governo e desistiram da luta.

Patrick Lawrence: Antes de abrir o foco, falemos um pouco mais da Síria. Havia dois fatores na guerra que desempenharam papéis decisivos na construção e manutenção da narrativa, como você diz. Em um certo ponto eles se cruzaram, mas vamos ver um de cada vez.

Primeiro, descreva suas impressões sobre o desempenho da mídia ocidental.
 Você os chamou de “ridiculamente bajuladores” num de seus artigos. Pode falar sobre isto? Foram, por exemplo, propositadamente cúmplices no “gerenciamento da percepção”, como dizem? É possível que os padrões profissionais tenham simplesmente colapsado, desde que deixei a reportagem?

Sharmine Narwani:
Os principais meios de comunicação ocidentais foram absolutamente cúmplices na disseminação da desinformação sobre o conflito sírio para servir as agendas políticas de seus respectivos governos. Vivemos uma era de guerra de informação total. Interessante é que as populações reconhecem isso num plano, digamos, intestinal, porque as pessoas estão-se separando dos veículos tradicionais e procurando fontes alternativas de informação.

Os jornalistas não foram enganados neste conflito. Os jornalistas que trabalhavam na Síria eram, na maior parte, crentes fiéis da ordem liberal, do excepcionalismo dos EUA, do intervencionismo. E esses profissionais são contratados porque pensam dessa maneira. Citam absolutamente sem questionar qualquer coisa que seus governos digam, apesar das mentiras do Iraque, Líbia, Vietnã, etc. São profissionais que absolutamente não se preocupam se a guerra é legal ou não – EUA e Reino Unido bombardeiam a Síria, instalam bases militares pelo mundo, financiam guerras e armas grupos terroristas, tudo isso é ilegal, se se considera o Direito Internacional.

Vários jornalistas ocidentais que ousaram investigar mais profundamente foram demitidos, silenciados ou foram caluniados até que sua reputação fosse destruída. Conheço jornalistas que perderam o emprego. O Huffington Post parou de publicar meu trabalho depois que comecei a reportar de dentro da Síria. Mais ou menos um ano depois, excluíram todo o meu arquivo, do site. Outros jornalistas de veículos mainstream que questionaram as narrativas da Síria foram muito criticados – por seus colegas, de forma bastante chocante. – Alguns deles retrocederam, escrevam menos, tuítam menos. Na cobertura da Síria, as táticas de intimidação usadas contra colegas nossos foram implacáveis.

Em suma, a mídia ocidental, sim, ajudou na encenação e ajudou a ampliar o conflito. Já não acho que jornalistas devam ter qualquer tipo de imunidade, quando distorcem tanto a realidade, como distorceram a realidade da guerra na Síria, e pessoas morreram nesse processo. Prefiro vê-los com ‘jornalistas soldados’, que cumprem ordens. Parece-me descrição bem acurada do papel dos jornalistas nas guerras contemporâneas.

Patrick Lawrence: Agora vamos às ONGs ocidentais – Human Rights Watch e afins – ou ao Observatório Sírio de Direitos Humanos. Qual foi o papel deles? São organizações q trabalham por princípios? Foram citadas como fontes primárias na imprensa ocidental. Mas Patrick Cockburn, na London Review of Books, disse que são organizações de militantes anti-Assad. Não se pode dizer que sejam “fontes confiáveis”.

Sharmine Narwani:
Na verdade, é bem interessante o papel que as ONGs desempenharam na operação de tecer esse conflito. Você está certo. Todas essas ONGs foram inteiramente unilaterais e pró-oposição. Divulgavam declarações e relatórios, baseados na definição mais vaga de “fonte” que já vi. E os jornalistas ocidentais seus amigos distribuíam aquele lixo por toda a mídia mundial. E os governos que se opunham ao governo sírio reagiam com indignação, sempre citando uma ou outra ONG e “a imprensa”, como se fossem fonte de fatos.

A maioria das entrevistas que se fizeram com sírios em campo eram coordenadas com pessoas ligadas à oposição militante – muitas feitas por Skype. Quem pode ter certeza sobre com quem fala? Por que diriam a verdade? Quem apresenta o jornalista à fonte? A maioria das informações vinham de ONGs – locais e internacionais. – Foram a fonte da maioria das informações que se encontrava sobre ataques com armas químicas, bombas de fragmentação, massacres, vítimas civis de ataques aéreos, etc.

A mais onipresente dessas ONGs é, claro, a “equipe de resgate” dos Capacetes Brancos financiada pelo ocidente, que só trabalhou em áreas com os grupos militantes mais extremistas e supostamente teria testemunhado vários dos supostos ataques químicos na Síria. Mas se você rastrear alguns assuntos pelo Facebook, rapidamente você encontrará fotos de dezenas dos mesmos funcionários dos Capacetes Brancos exibindo armas e posando ao lado de combatentes da Al Qaeda e do ISIS. Pois apesar de haver muitas evidências desse tipo, nas próprias páginas e sites das próprias ONGs, a mídia ocidental jamais deixou de usar esse grupo como fonte. E ainda usa, até hoje.

Patrick Lawrence: Nesta linha, você escreveu um artigo, logo depois do suposto ataque com gás em Ghouta Oriental – na primavera do ano passado, me parece. Excelente artigo. Tive o prazer de citá-lo em uma das minhas colunas do Salon . Você realmente encontrou e fotografou uma fazenda mantida por jihadistas cheia de equipamentos de armas químicas fornecidos pelos EUA. Só os jihadistas tinham esse tipo de arma. Mais ninguém tinha.

Você pode falar sobre essa experiência? Chama a atenção que você sempre consegue manter-se mais perto da realidade, que outros correspondentes, especialmente os ocidentais residentes em Beirute. E como as matérias sobre esses ataques comprovam, também se mantém mais perto da verdade.

Sharmine Narwani:
Não tenho nenhuma vantagem particular sobre outros jornalistas estrangeiros que viajam para a Síria. Eu tenho que esperar o mesmo tempo para receber um visto, e cada visita é limitada a quatro dias, embora isso possa ser estendido no país com a permissão do Ministério da Informação.

Quando estive em Damasco em março passado, o ministério telefonou para os repórteres sobre um laboratório que haviam descoberto no dia anterior, enquanto liberavam algumas fazendas de Ghouta… Acontece que a instalação não era tão segura e tivemos que nos abaixar e atravessar alguns campos muito acidentados a pé, com morteiros e tiros disparados a poucos metros de distância. Eu não sou um repórter de guerra e não tenho treinamento algum nesse nicho especializado e louco, então não foi nada agradável. A instalação em si era um tipo de laboratório dirigido por uma facção militante, apoiada pelos sauditas, chamada Jaysh al-Islam. Ficou claro que ali estava acontecendo algo, que tinha utilidade militar, mas o laboratório tinha acabado de ser descoberto e ainda não estava claro o que havia ali.

A propósito, nunca escrevi que se tratasse de laboratório de armas químicas. Vê-se nas fotos o nível de sofisticação do equipamento, as grandes unidades de compressão de gás, os tubos indo do laboratório para os aparelhos mais pesados abaixo. A única conclusão que tirei daquela descoberta foi que militantes sírios claramente tinham os meios para acessar equipamentos cuja venda é proibida, estrangeiros e até americanos, com tecnologias de uso duplo, que tinham meios para montar linhas de produção em plenas zonas de guerra, que tiveram acesso a substâncias tóxicas. Encontrava-se cloro em contêineres enfileirados em frente da instalação. Antes, a narrativa oficial rezava que os “rebeldes” não poderiam ser responsáveis por ataques com armas químicas porque não poderiam nem produzi-las, nem comprá-las. Aquela instalação mostrou que, sim, podiam produzir armas químicas.

Patrick Lawrence: Interessante. Seu relato obriga-me a fazer outra pergunta. Entendo que você foi levada àquele local por autoridades sírias. Havia como ter certeza de que não fosse operação do próprio governo?

Sharmine Narwani: De fato, soldados sírios levaram duas outras equipes de mídia – emissoras de TV – e eu, até aquelas instalações, com permissão do Ministério da Defesa. Vários sinais me levaram a acreditar, com razoável confiança, de que não estávamos entrando em cenário montado. Toda a área havia sido pesadamente bombardeada – havia detritos e poeira cobrindo a maior parte do equipamento, o que é um dos itens que se considera para saber se o material poderia ter sido posto ali na véspera, para a encenação. Ainda se ouviam tiros e bombardeios a poucos metros, na área; ninguém chamaria aquilo de “terra libertada” há tempo suficiente para que o exército sírio tivesse podido levar aqueles equipamentos para lá, que tivesse transportado aqueles materiais explosivos através dos campos esburacados sulcados até aquele laboratório, e que em seguida teria coberto tudo com restos de argamassa e poeiras cenográficos. Não. Não foi assim que aconteceu.

Além de tudo isso, também o grupo militante que ocupara aquele laboratório, o Jaysh al-Islam, apoiado pelos sauditas, não só não negou que o laboratório fosse seu, como também já admitiu ter usado agentes tóxicos no conflito sírio – contra os curdos, no bairro de Sheikh Maqsood, em Aleppo.

Patrick Lawrence: Para mim, o episódio em Ghouta, que terminou nos bombardeios norte-americanos, britânicos e franceses contra mísseis de Damasco, foi o segundo mais malfeito de todos. O primeiro lugar vai para o incidente de agosto de 2013: nem bem os inspetores de armas químicas da ONU acabavam de se instalar no hotel em Damasco – a convite de Assad – e acontece mais um ‘ataque químico’ em Ghouta. Instantaneamente os EUA culparam Assad. Absurdo. Já não se fazem nem operações de ‘falsa bandeira’ e ‘operações psicológicas’ como antigamente! Ou, talvez, sejamos hoje, nessa era saturada de mídia, capazes de ver mais.

Será que se pode dizer que todos aqueles incidentes na Síria foram falsificados, encenados? É possível algum julgamento conclusivo?

Sharmine Narwani:
Não posso fazer nenhum julgamento conclusivo, mas, considerada a minha experiência, tenho algumas ideias sobre esse assunto. Nos primeiros dias, foi como quase cronometrado: na véspera de cada reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a Síria – ou imediatamente antes da chegada de alguma “equipe internacional” ao país –, acontecia algo violento e horrível. Podia-se praticamente cronometrar esses massacres e ataques com armas químicas, de acordo com o evento politicamente significativo que estivesse prestes a ocorrer em alguma capital ocidental. Difícil não perceber esse padrão e ainda mais difícil não desconfiar desses “ataques” sempre atribuídos ao governo sírio.

Fiz algumas investigações de primeira hora sobre os ataques com armas químicas, incluindo o incidente de 2013 em Ghouta. Não posso dizer exatamente o que aconteceu, mas posso passar o que realmente sei sobre esse incidente. Havia em Ghouta um jornalista jordaniano que, no dia seguinte aos ataques, entrevistou moradores, militantes e suas famílias. Esse jornalista e um repórter da AP publicaram matéria em que noticiavam que militantes haviam retirado algumas armas novas e desconhecidas de contêineres dos sauditas, e que essas armas haviam sido mal usadas e causaram as mortes.

Na sequência, um dos funcionários de mais alto escalão da ONU na Síria nos disse: “A inteligência saudita esteve por trás dos ataques. Infelizmente, ninguém ousará dizer isso”. Sabemos com certeza que o mesmo funcionário deu a mesma informação a pelo menos dois outros repórteres ocidentais – que nada informaram sobre isso.

Este é um padrão que se constata em praticamente todos os demais ataques – evidência manipulada, cadeia de custódia [ing. chain of custody] desconhecida, acesso para investigadores sempre controlado e limitado. A maioria dos ataques ocorre em áreas controladas por militantes, de modo que a oposição tem controle total sobre o acesso e o fluxo de informações. Não acredito que seja possível processar o governo sírio em tribunal imparcial e condená-lo, em qualquer um desses casos. Além do mais, também no plano lógico, o estado sírio é a entidade que menos se beneficia de qualquer desses incidentes de guerra química, ou desses massacres. O governo sírio simplesmente não tinha motivo para fazer esse tipo de ataque. Por que usar munição química, altamente controversas, quando se pode causar danos ainda mais extensos, com as convencionais – e escapar de qualquer censura?

Patrick Lawrence: Como sugeri há pouco, a sua reportagem é sui generis porque desce aos mínimos detalhes. Na Síria, pode-se dizer que você é única, nesse aspecto. Fiquei particularmente intrigado com uma de suas fontes, o padre Frans van der Lugt, o padre holandês que viveu muitos anos em Homs, onde foi morto na primavera de 2014. Fale, por favor, sobre ele.

Sharmine Narwani:
Nunca entrevistei o padre Frans. Mas, sim, visitei o seu túmulo, na igreja onde trabalhou, numa visita que fiz a Homs, pouco depois de ele ter sido morto. Mas, com seus escritos, este padre holandês nos deu algumas ideias preciosas e muito objetivas sobre o que aconteceu nos primeiros dias da crise – eventos que ele testemunhou em primeira mão.

Em setembro de 2011, ele escreveu: “Desde o início tem havido o problema dos grupos armados, que também fazem parte da oposição (...). A oposição de rua é muito mais forte do que qualquer outra oposição. E essa oposição está armada e frequentemente emprega brutalidade e violência, para, em seguida, culpar o governo”.

E então, em janeiro de 2012, ele expandiu: “Desde o início, os movimentos de protesto jamais foram puramente pacíficos. Desde o início, vi manifestantes armados marchando nos protestos. E eles começaram, antes de todos, a atirar na polícia. Muitas vezes a violência das forças de segurança têm sido reação à violência brutal dos rebeldes armados”.

O padre Frans van der Lugt, de 75 anos, foi baleado a queima-roupa, quando estava sentado num jardim da igreja, na parte de Homs então ocupada pelos rebeldes. [Fim da primeira parte]

Segunda parte

Sobre o fim da guerra na Síria e o “Oriente Médio pós-imperial” 

Patrick Lawrence:  Mantendo essa questão das narrativas, você escreveu certa vez sobre “nada além de grande número de movimentos de protesto, parecidos entre eles, em massa, que se tornam violentos”, mencionando Síria, Egito, Líbia, Ucrânia e Tunísia. Você pode comentar esse insight sobre tantos movimentos “sósias”? Acho que sei exatamente o que você quis dizer, mas gostaria que comentasse.

Sharmine Narwani: As quatro narrativas utilizadas para minar a legitimidade do Estado sírio e estabelecer o cenário para a mudança de regime foram: 1) um ditador estaria matando seu próprio povo; 2) os manifestantes seriam pacíficos; 3) a oposição estaria desarmada; e 4) estaria acontecendo na Síria uma revolução popular.

Todos esses ‘pressupostos’ deixavam sem considerar as revoltas árabes precedentes, que já haviam derrubado líderes na Tunísia e no Egito. Esses quatro ‘itens’ tornaram-se base de toda a propaganda do Ocidente contra a Síria, o que significava que quem questionasse criticamente qualquer desses pressupostos seria marginalizado. Ainda hoje, mesmo depois de sabermos das dezenas de milhares de terroristas do ISIS e terroristas da Al Qaeda que operam na Síria e das milhares de toneladas de armas enviadas aos extremistas islâmicos pela CIA, o Pentágono, os britânicos, franceses, sauditas, turcos, cataris, Emirados e israelenses, mesmo assim ainda se ouvem coisas como “Assad matou 500 mil civis”. Todos civis? Nenhum terrorista ou ‘manifestante’ armado? Significaria que ISIS, Al Qaeda, Ahrar al-Sham ou Jaysh al-Islam não mataram ninguém, afinal de contas, nessa guerra?

“Manifestantes pacíficos?” Sim, mas foram atacados e mortos a tiros. Quem atirou neles? Forças do governo? Ou atiradores apoiados por estrangeiros que sabiam que só se morressem sírios nas manifestações, a população se deixaria ‘conduzir’ para um arremedo de rebelião popular?

Quanto a ter havido uma “revolução popular” na Síria, sempre me impressiona. Que revolução popular de sírios teria algum dia centros de comando na Jordânia e na Turquia? E receberia ordens de pelo menos sete capitais estrangeiras? Quando se conhecem os detalhes do que aconteceu na Síria nos últimos oito anos, é bastante fácil ver claramente o que há de falso nas quatro narrativas de propaganda pró-ocidente.

Quando falo de movimentos semelhantes, falo especificamente de operações apoiadas por estrangeiros, para mudar regimes no Oriente Médio. Esses protestos, não importa onde ocorram, servem-se todos de símbolos, linguagem e ‘acrobacias’ lógicas semelhantes. Há organizações, muitas financiadas pelo Ocidente, que treinam jovens em todo o mundo – particularmente em países nos quais os EUA desejam ‘construir influência’ – em táticas e estratégias para deslegitimar um governo e derrubá-lo [vide fala de Mike Pompeo, o doido, quase inacreditável, mas bem documentada:
https://youtu.be/qfrhATD4nM0  (NTs).

Mas quando os protestos não conseguem derrubar um líder, chegam as armas e veem-se atiradores super treinados e jamais identificados, que atiram contra multidões de civis. O mundo soube desse processo na Ucrânia, de um telefonema vazado entre os ministros das Relações Exteriores da Estônia e da UE. Viu-se também na Síria bem no começo, também, em Daraa. Moradores de Daraa relataram “estrangeiros” que de repente começaram a aparecer na cidade, antes de o tiroteio começar. Há fotos incansavelmente repetidas pelos nossos jornais, de eventos na Síria. Mas posso assegurar que a maioria delas carrega por trás longas histórias de mentiras ou de encenação.

Patrick Lawrence: Você fez um comentário especialmente lúcido – e ousado – no final de 2013. Você previu o surgimento de um “arco de segurança”, do Levante ao Golfo Pérsico – do Líbano, passando pela Síria e pelo Iraque, até o Irã. Agora, acaba de haver uma reunião em Damasco com militares de alto escalão dos mesmos países – deixando de fora o Líbano por algum motivo. O assunto foi o que você previu: enfrentar o terrorismo.

Por favor, se puder, fale sobre isso. Daquela vez você antecipou três objetivos: integridade territorial; cooperação militar e de segurança; e visão de mundo comum. Em que ponto estaria esse projeto hoje, e para onde caminha?

Sharmine Narwani:
É difícil fazer previsões nesta região, porque eventos, alianças e jogadores mudam o tempo todo. Decidi analisar a visão de longo prazo do que estava ocorrendo na região: o Líbano, a Síria, o Iraque e o Irã eram alvos do extremismo sunita que estava sendo financiado pelo Ocidente e seus aliados regionais. Uma meta principal era incapacitar a crescente influência do Irã na região, mas também desmantelar o “eixo de resistência” – Irã, Síria, Hezbollah. Mas ao reunir seus ‘exércitos jihadistas’, monarcas sunitas e líderes ocidentais se equivocaram horrivelmente.

Em vez de destruir a Síria, isolar o Irã e restabelecer a hegemonia sobre o Líbano e o Iraque, o ataque terrorista estimulou esses quatro estados muito diferentes a priorizar a segurança acima de tudo. A batalha contra extremistas treinados pela OTAN e financiados pelo Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) tornou-se luta pela própria sobrevivência para aqueles estados, e eles não teriam outra escolha que não fosse trabalhar juntos, reunir recursos, criar um comando central, coordenar operações militares, compartilhar inteligência.

Acreditei que os quatro estados conseguiriam resistir ao tsunami do terror, também porque haviam conseguido uma cobertura incomum e de poder, de Rússia e China no Conselho de Segurança da ONU. Essas duas potências empenharam-se com muita firmeza em não deixar que o conflito sírio degenerasse. Isso, por diferentes razões, nenhuma delas secreta. Se o Ocidente tivesse entendido essa dinâmica desde o início, talvez a crise síria não tivesse sido mantida por tanto tempo.

Talvez parecesse loucura em 2013, mas eu conseguia ver facilmente Irã, Iraque, Síria e Líbano como uma âncora de estabilidade nesta região, cada vez mais decisiva. Hoje, vejo que o “arco de segurança” vai-se tornando realidade, embora as capitais ainda não falem disso. Certamente, a recente reunião, sem precedentes, dos ministros da Defesa de Irã, Síria e Iraque, coordenar abertamente o combate contra o terrorismo já é sinal de que se forma um “arco de segurança”. E os quatro países já demonstraram seu compromisso com essa visão em incontáveis operações militares e de inteligência conjuntas nos últimos anos. Mas o mais importante é que esses quatro estados descobriram que podem dar conta do terrorismo, por conta própria, dentro da região.

Patrick Lawrence: Considerando-se o quadro ainda mais de perto, o que você quer dizer com “cosmovisão comum”?

Sharmine Narwani:
Irã, Síria e Hezbollah já compartilhavam uma visão anti-imperialista e antissionista do mundo, que valorizava posições não alinhadas e independentes, rejeitava a ordem mundial liberal dominada pelo Ocidente e priorizava o desenvolvimento e a autossuficiência. Iraque e Líbano tendiam a ser mais centrados no Ocidente, embora segmentos significativos de suas populações estivessem alinhados com o Eixo da Resistência.

Penso que, na contracorrente do conflito sírio, emergiu uma grande mudança global no equilíbrio de forças, que forçará Iraque e Líbano a reavaliarem sua orientação política e a se aproximarem dos vizinhos mais próximos.

À medida que o globalismo [neoliberal] recua, o mundo se tornará economicamente mais regionalizado e a multipolaridade redefinirá as instituições globais.

Já se vê o rebalanceamento da influência dos EUA na região, por exemplo, na corrida que se constata no Oriente Médio, onde todos os países querem estreitar laços com Rússia China, todos, inclusive aliados muito próximos dos EUA, como Israel e Arábia Saudita. Entendo que está emergindo uma nova cosmovisão nessa região – e cosmovisão que favorece uma perspectiva oriental, a cooperação regional e o surgimento de novos centros de poder.

Patrick Lawrence: Assim nos aproximamos de um tema proeminente no seu trabalho: o fim da intervenção pelo ocidente. Soluções do Oriente Médio para problemas do Oriente Médio. Para você, estamos vendo um Oriente Médio pós-imperial.

É um grande pensamento. Pela primeira vez, em quanto tempo? – você diz décadas, eu diria séculos –, a direção e o destino da região devem ser conduzidos de dentro. Significa: não por potências estrangeiras, mas por estados do Oriente Médio, setores sociais não estatais, partidos políticos, etc. Onde estamos nesse processo? É preciso tomar cuidado para evitar angélisme. Você conhece essa palavra? Uma das minhas favoritas, para designar os extremos ingênuos do idealismo.

Sharmine Narwani:
Obrigado por enriquecer meu vocabulário. – Não, não conhecia a palavra. Às vezes, sou acusada de idealismo em minha análise – projetando no mundo as coisas que desejo. Essa é uma avaliação, que respeito. Para determinar se faço isso, podemos examinar minhas previsões ao longo da última década. Várias delas se confirmaram ou estão em andamento. Um embaixador britânico na região, ao deixar o cargo, disse-me: “O que você dizia há dois anos parecia ridículo. Agora todos estamos falando a mesma língua.” Foi o melhor elogio que jamais recebi – porque foi avaliação de quem trabalhava dentro da situação.

Embora as potências ocidentais não possam mais invadir e ocupar países – estão quebradas e a guerra não é popular –, acredito que continuarão a tentar intervir nessa região, porque seus métodos de guerra irregulares são mais baratos e menos detectáveis. Isso não vai funcionar com seus principais adversários, porque esses estados agora conhecem o jogo e têm cobertura dos russos e chineses – que também conhecem o jogo. Verdade é que o intervencionismo dos EUA deixou em seu rastro alguns adversários muito inteligentes e eficientes.

Eu sempre digo que “eficiência” é a palavra mais importante que define a era pós-EUA no Oriente Médio. Iranianos, sírios, o Hezbollah derrotaram nada menos que os esforços combinados de OTAN e CCG. Não é pouco. Hoje fabricam os próprios mísseis, desenvolvem as próprias centrífugas, produzem pesticidas, quimioterápicos, trigo resistente à seca e Coca-Cola. Refiro-me a essas competências tão duramente adquiridas, quando digo que a região será agora liderada por dentro. Nós temos poder intelectual, vontade e eficiência locais, e, embora aos trancos e barrancos, estamos derrotando os antigos opressores.

Patrick Lawrence: Em um certo ponto do seu trabalho, você começa a usar “nós” e “eles”, ou seja, os ocidentais, como você acabou de fazer. Estamos portanto na questão da identidade ou identidades. Parece muito importante para você. Entende-se inteiramente, mas, novamente, é terreno que exige cuidado. Não nos interessa ultrapassar os discursos de “nós-eles”, “o eu e o outro” característicos dos séculos dominados pelo Ocidente – os séculos orientalistas, poderíamos dizer?

Sharmine Narwani:
Eu não acho que “nós” e “eles” equivalham a identidades absolutas. (…) Sou oriental e ocidental, e extraio grande força disso. Isso me dá uma perspectiva ampla, que falta a alguns que conheço na minha área de falta. Tampouco sou compactamente ideológica. Prefiro escolher ideias que façam sentido para mim. Não tenho qualquer ódio inerente ao “outro”.

Se uso a palavra “Ocidente” para sugerir um inimigo, você pode ter certeza de que falo de um grupo político minoritário, que fabrica consensos sob falsos pretextos, para executar atos de agressão. Não posso usar qualquer outra palavra. Essas ações são ocidentais, especificamente, nascidas de séculos de colonialismo ocidental, imperialismo, hegemonia e suas arrogâncias. No mínimo, estarei sendo historicamente precisa.

Patrick Lawrence: Eu já disse muitas vezes que a paridade entre o Ocidente e o não Ocidente é uma característica inevitável do nosso século. Você parece concordar. Você escreveu sobre a transformação da ordem global, pelo não Ocidente – o mesmo pensamento em linguagem diferente, se entendi corretamente. Você pode expandir isso?

Sharmine Narwani:
Impérios sobem e descem. O mesmo acontece com o poder e a economia de estados e regiões. No momento presente, o centro de gravidade política e econômica do mundo está mudando. Penso frequentemente que chama a atenção que haja aí um ciclo que não muda. Mas os poderosos nunca aprendem isso. Quando a fortuna se acumula num país, em apenas algumas gerações o rico está flácido, preguiçoso, arrogante e perde a vantagem competitiva que o fez enriquecer. No nível micro, de famílias ricas, é o que acontece sempre. Mas ninguém aprende.

Nisso, o Oriente não é melhor que o Ocidente. Mas aconteceu que agora é o tempo da Ásia. Hoje, só na Ásia reúnem-se todos os ingredientes para crescimento massivo e transformação: dinheiro, visão, fome, influência, alianças essenciais – e enormes populações carentes que carecem de infraestrutura e redes críticas. Pense em empregos, empregos, empregos. A economia sempre impulsionou o poder político. Implica que logo veremos o Ocidente correndo na direção da Ásia. Discretamente, os europeus já vão deixando de lado os ditames dos EUA, para investir na visão da China [Cinturão e Estrada] e, eventualmente, também na Rússia.

Historicamente, hegemonias em declínio começam a agir como os grandes dinossauros – lentos, de cérebro pequeno, incapazes de mudar a própria trajetória, por causa de muito impulso e da pouca visão.

Você sabe, Trump foi eleito com um programa que promovia relações atualizadas e mais negócios com a Rússia e a China. Mas o ‘estado permanente’ [ing. permanent state] não conseguiu entender nem permitiria tal coisa: Rússia e China já haviam sido enquadradas como inimigas principais dos EUA. É falta de visão. Essa é uma trajetória sem saída que acelerará o declínio americano.

Patrick Lawrence: Onde você localiza o centro de gravidade nesta questão – no Oriente Médio? Na relação sino-russa? China, Rússia, Irã, Índia, talvez?

Sharmine Narwani:
Não há dúvida de que o relacionamento sino-russo é o transformador que inaugura esta nova era. O Ocidente sempre buscou, como um objetivo-chave da política externa, impedir que esses dois gigantes formassem uma relação de cooperação. Lembro-me do fascínio e do horror que me inspiraram a viagem de Obama em 2014 ao Extremo Oriente. Ali estava o presidente dos EUA literalmente abandonando a China, em visitas ao Japão, Filipinas, Coréia do Sul – desafiando a influência geopolítica da China e fazendo reivindicações territoriais na vizinhança dos chineses, – e na mesma viagem, detonava os russos com ameaças de sanções. O que significaria aquilo? Que resultado líquido ele esperava desse movimento de projeção soft de poder?

Isso foi cerca de um ano antes de o Irã concordar com um acordo nuclear com os EUA e outros membros permanentes do Conselho de Segurança. No mesmo momento, Obama também estava aumentando as ameaças e acionava suas alavancas contra o Irã. Ao mesmo tempo, Irã, Rússia e China estavam “descobrindo-se” uns os outros na relação com o conflito sírio. Os EUA realmente ajudaram esses três países da Eurásia a encontrar uma causa comum, em meio a uma chuva de granizo de ameaças e protestos dos norte-americanos.

O que o Irã, a Rússia e a China também descobriram durante esse processo é que compartilham semelhanças críticas: são três estados que acreditam na realpolitik apesar de suas diferentes ideologias, influências e histórias. Os três se movem pelos próprios interesses; os três acreditam que a adesão ao direito internacional os beneficia; os três preferem o poder soft; os três concordam que as instituições e redes internacionais precisam passar por revisão fundamental, de atualização; e os três acreditam que as ações e atitudes dos EUA constituem grave perigo para a paz e estabilidade globais. Os três procuram fazer crescer as respectivas economias, proteger a vizinhança e manter a estabilidade doméstica – sob uma estrutura multipolar.

Em suma, o principal centro de gravidade nessa transformação global – a meu ver – são Irã-Rússia e China. Há, é claro, outros países que causam impacto na Ásia, especificamente as Coreias e Índia/Paquistão. Resolver esses dois conflitos abrirá o caminho para um próspero século asiático. Além disso, observe que já há um pivô fundamental, instalado para movimentar as relações entre a Alemanha e a Rússia. Este evento, em última análise, conectará a fortuna da Europa à ascensão da Ásia.

Patrick Lawrence: Devo acrescentar que também temos que considerar a resistência do Ocidente à perda de domínio, à relativa perda de influência. A luta será formidável, confusa e prolongada, não lhe parece? As próximas décadas serão de luta feroz.

Sharmine Narwani:
Sim, ninguém está esperando qualquer tipo de “rendição”. Os velhos hegemons vão acabar lutando, e isso é um perigo real para todos nós. Eles têm aqui a oportunidade para reconhecer a ordem natural das coisas, as mudanças que são inevitáveis – e depois se adaptar e participar de maneira significativa nas novas economias e centros políticos. Mas isso exigiria algum senso comum e capacidade para antever desdobramentos, e eu não vejo isso em Washington, Londres ou Paris hoje, infelizmente. Para dizer o mínimo, estão, isso sim, buscando mais e mais guerras – Venezuela, Ucrânia, Irã – e se apegando a construções antigas como a OTAN, que só prosperam em conflitos.

Há uma possibilidade muito real de vermos algumas guerras catastróficas acontecerem. Por mais horrível que isso pareça, desde 2013 eu me vejo às vezes imaginando se uma guerra completa no Oriente Médio não seria uma coisa boa, porque creio que seria rapidíssima. O prolongado derramamento de sangue dos últimos oito anos [na Síria] parece-me ser o pior cenário possível – e cenário que, acredito, serve bem às antigas potências. Por incrível que pareça, os velhos hegemons ainda não dão sinais de perceber que a corre sangue nos dois lados da liça. O que os norte-americanos perderam naquela hemorragia de dinheiro, credibilidade e influência nunca mais recuperarão.

Patrick Lawrence: É como se Washington estivesse fazendo todo o possível para incentivar alianças e cooperação entre nações não ocidentais. A retirada americana do acordo nuclear com o Irã, e a reimposição de sanções – agora já duas vezes – são bons exemplos dentre muitos. Como se pode explicar que os EUA cometam erros de cálculo de tal magnitude?

Sharmine Narwani:
Sinceramente, não sei como responder essa pergunta. As ações dos EUA desafiam a lógica. Toda vez que os EUA fazem um movimento nessa região, é como se dessem um tiro no pé. Por exemplo, Trump recentemente ‘reconheceu’ a soberania de Israel sobre Golan, desafiando frontalmente a opinião global e o direito internacional. Supôs que estivesse promovendo um aliado, Netanyahu, antes da eleição em Israel, e mostrando ao mundo quem é o chefe. E fez o quê? Trump reforçou a posição dos atores regionais que se opõem ferozmente às negociações sírio-israelenses e a qualquer compromisso com Israel. Haverá repercussões militares para Israel por causa disso. Agora, todos os líderes árabes buscarão apoio em Moscou porque os EUA deixaram de ser vistos como intermediários confiáveis. Foi movimento muito estúpido, em termos dos interesses de Washington. Garantiu significativa vantagem, no longo prazo, para os inimigos dos EUA.

Em todos esses anos em que cubro o Oriente Médio, nunca vi tão confiantes os adversários dos norte-americanos. Claro que permanecem muito preocupados com o potencial de risco que advém de mais aventureirismo militar dos EUA. Mas não há quem não veja que os EUA nunca estiveram mais isolados. Washington conseguiu empurrar europeus, russos e chineses para o campo do Irã, na questão do acordo nuclear. É quase inacreditável.

Patrick Lawrence: O racha transatlântico acentua-se cada vez mais, como você já disse. Até onde você acha que isso pode avançar? Você vê um realinhamento histórico no “mundo atlântico”, à nossa frente – como você sugeriu –, sob liderança da Alemanha?

Sharmine Narwani:
Não se vê só essa fissura transatlântica. Também se veem fissuras dentro da Europa, com populações e governos que questionam alianças malsucedidas ou medíocres, num mundo em rápida mudança. Examinei um relatório de inteligência dos EUA disponível publicamente há alguns anos, uma daquelas projeções de tendência de cinco anos.
Duas daquelas projeções de tendências globais me interessavam mais: a má governança e a fragmentação dos estados, em entidades mais autônomas. É o já se observa em toda a Europa, na maioria dos casos em fases relativamente iniciais.

Patrick Lawrence: Nessa mesma linha, você relatou em janeiro de 2014 que embaixadores europeus estavam voltando a Damasco para compartilhar informações sobre as milícias jihadistas. Como você interpreta isso? Será mais um exemplo de Ocidente dividido?

Sharmine Narwani:
Minha impressão é que as agências europeias de inteligência estavam chegando a Damasco porque estavam preocupadas com a chegada dos jihadistas. Definitivamente não estavam indo para a Síria para ajudar os sírios a combater o terrorismo. Depois de terem financiado e apoiado a militância na Síria, os Estados europeus tiveram um choque, quando a Turquia acionou a torneira dos refugiados e centenas de milhares de sírios desceram para as costas da Europa.

Esses governos sabiam que haveria um retrocesso e estavam dispostos a eliminar seus cidadãos mais perigosos dentro do teatro militar sírio – daí os esforços para abrir canais com Damasco. O interesse dos europeus foi inteiramente egoísta naquele ponto do conflito. Não se tratava de romper com a “posição americana” na Síria.

Patrick Lawrence: De fato. Você encontrou Grã-Bretanha e França entre os parceiros de um Centro de Operações Militares estabelecido na Jordânia, um mês depois que você informou sobre as trocas diplomáticas em Damasco. É difícil ler os europeus. Por favor, conte-nos sobre o “Comando de Operações Militares” [ing. Military Operations Command, MOC]. Quem mais estava nele, e o que ele fez? Ainda está operacional?

Sharmine Narwani:
O MOC era um grupo secreto de estados que apoiavam a oposição e montaram uma sala de operações em Amã [capital da Jordânia], provavelmente em algum momento de 2013. No início de 2014, estabeleceu-se a “Frente Sul” [ing. South Front], no sul da Síria: grupo de 54 milícias apoiadas pelos países do MOC. Como mencionado anteriormente, a maioria dessas milícias que receberam financiamento, armas, suprimentos, inteligência dos estados ocidentais foram distribuídas ao lado da Al Qaeda em toda a região-chave da província de Daraa, na fronteira com a Jordânia. Não há dúvida de que o MOC sabia disso; ainda assim continuou a armar e apoiar os militantes ligados à Al Qaeda.

Não há muitas informações no registro sobre o MOC, mas graças ao noticiário e relatórios do think tank, além de algumas revelações dos Estados membros, parece que tem mais de uma dúzia de membros, incluindo os EUA, a Jordânia, alguns europeus e estados árabes do Golfo. Ouvi pessoalmente a informação de que Israel também participa, e que – certamente é verdade no período final – a maior parte das tarefas do MOC era garantir proteção aos interesses de Israel no sudoeste da Síria.

Trump cortou a ajuda aos militantes sírios em meados de 2017, mas quando eu estava em Daraa um ano depois, pouco antes da batalha final do sul, falava-se do MOC como se ainda estivesse operacional. Acho que naquele momento ele se transformou em algo um pouco diferente: não estava tão interessado nos grupos da Frente Sul e já fizera saber aos militantes sírios que estariam basicamente sozinhos na próxima batalha do sul. O foco do MOC até então, acredito, era principalmente negociar um resultado benéfico no sul, já que manter as hostilidades com a Síria estava-se tornando insustentável para a Jordânia, o exército sírio estava avançando, e os moradores de Daraa estavam pressionando os militantes a desistir – mas, o foco mais importante, me parece, era garantir que nenhum resultado político ou militar deixasse Israel vulnerável.

Não se esqueça que naquele momento a conversa principal era sobre os EUA conseguirem da Rússia que mantivesse o Irã e o Hezbollah fora dessas áreas do sul. Faz muito sentido. Um comandante do Exército Árabe Sírio, com base em Daraa, com quem conversei, tinha informações de vários militantes capturados, de que as instruções prioritárias do MOC eram todas relacionadas a Israel.

Patrick Lawrence: O ‘eixo’ [John] Bolton-[Mike] Pompeo na administração Trump é muito preocupante, no que tenha a ver com o Irã. Fiquei preocupado quando Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores do Irã, anunciou sua renúncia em março – e aliviado, quando a renúncia não foi aceita. Em que direção você acha que isso esteja andando? Acredita que os norte-americanos cheguem a um conflito aberto com o Irã?

Sharmine Narwani:
A notícia boa sobre Bolton, Pompeo, [Elliott] Abrams e [Jared] Kushner é que são doidos, e a comunidade internacional não os leva a sério. A notícia ruim sobre Bolton-Pompeo-Abrams-Kushner é que são doidos e ninguém sabe quando convenceram o presidente a levá-los a sério.

Até agora, não parece que o governo Trump tenha o apoio necessário dentro de seus centros militares e no Congresso, para iniciar um conflito aberto contra o Irã. Sabemos disso em parte porque aumentou o uso de táticas de guerra irregular contra o Irã – sanções, subversão, sabotagem, propaganda – o que significa que os EUA não vão atacar o Irã. Claro que a situação pode mudar rapidamente, especialmente se houver um “disparo acidental”, coisa que tanto os EUA quanto seus aliados regionais são sempre rápidos a construir.

Acho que o Pentágono tem medo de uma guerra com o Irã. Ouvi há muitos anos, de um amigo que trabalha lá, que os EUA nunca ‘venceram’ qualquer ‘jogo de guerra’ contra o Irã – a menos que tivessem trapaceado. Esses jogos de guerra custam milhões de dólares. Guerra real custará muito mais.

O que se sabe com certeza é que estamos lidando com doidos na Casa Branca – conectados por linha direta com doidos em Tel Aviv e doidos em Riad.

Patrick Lawrence: Minha opinião – que peço que você comente – é que o surgimento do Irã como potência regional é tão inevitável quanto a paridade entre Ocidente e não Ocidente. É inútil que os EUA resistam contra isso, mas, mais que isso, os americanos deveriam abraçar os iranianos como aliados naturais em todos os tipos de contextos. Esse é o meu ponto de vista. O que lhe parece?

Sharmine Narwani:
Minha opinião é que o Irã dificilmente acederá a qualquer pedido que os EUA façam, até que Washington altere seus comportamentos malignos. Não há sinal de que isso esteja prestes a acontecer. Depois de retirar os EUA do acordo nuclear, Trump procurou secretamente recompor relações com o Irã. Nenhuma autoridade no Irã sequer respondeu. O sentimento é compartilhado pelo público iraniano, que percebe que os EUA nunca respeitarão o Irã, nunca respeitarão seus compromissos e nunca deixarão de bater nos tambores de guerra. Por que o Irã desejaria ou precisaria entender-se melhor com o governo dos EUA? Para levantar as sanções? Há muitos no Irã que acreditam que as sanções salvaram o país, forçando os iranianos a se tornarem produtores, fabricantes e até mesmo exportadores.

O Irã é potência regional apesar dos esforços dos EUA para incapacitá-lo. O que, então, os EUA teriam a oferecer? Você já observou como são os aliados dos EUA no sul global? São países miseráveis, nada produzem, importam tudo, são insuficientes na maioria das categorias de desenvolvimento, têm dívidas espantosas e aplicam contra eles mesmos os grilhões da austeridade. Nenhum daqueles líderes sobreviveria sem o patrocínio dos EUA. “Paridade” é palavra que simplesmente foi apagada do vocabulário americano para assuntos internacionais.

Patrick Lawrence: Passamos por vários itens nessa nossa conversa. Agora, consideremos os temas um a um. Você acabou de comentar o movimento dos EUA, de avalizar uma ‘soberania israelense’ sobre as colinas de Golan. Comentemos agora a derrota decisiva do ISIS, como anunciamos recentemente. Quem fica com os louros? A imprensa americana rotineiramente sugere que sejam os EUA. Quem realmente derrotou o ISIS?

Sharmine Narwani:
Preparem-se. O que se sabe na região é que os EUA passaram os últimos cinco anos capacitando o ISIS e encorajando a que tomassem terras no Iraque e na Síria. Ao contrário dos relatos da mídia dos EUA, os EUA não derrotaram o Estado Islâmico. Se alguma coisa fizeram, foi exatamente jamais, em tempo algum, lutar contra o Estado Islâmico.

John Kerry, o ex-secretário de Estado, até admitiu: “A razão pela qual a Rússia entrou foi porque o ISIL [outro nome para o ISIS] estava ficando mais forte. (...) Vimos que estava crescendo. Vimos que o Daech [como ISIS também é chamado] estava crescendo em força, e achamos que Assad estava ameaçado. Mas supusemos que provavelmente poderíamos gerenciar, que Assad iria negociar. Mas em vez de negociar, Assad conseguiu que Putin o apoiasse”.

A coalizão liderada pelos EUA literalmente assistiu ao processo e nada fez, enquanto o Estado Islâmico marchava pela fronteira iraquiana para a Síria. Os EUA ignoraram os caminhões de petróleo do ISIS que cruzaram a Turquia onde o petróleo era vendido, para financiar o crescimento do grupo terrorista. Fizeram vista grossa, ao saber que aliados deles, dos EUA, estavam financiando e armando ISIS. Os nomes de Qatar, Arábia Saudita e Turquia são especificamente nomeados por autoridades dos EUA em declarações públicas e e-mails vazados.

O ISIS foi valioso ativo norte-americano em guerra dos EUA para mudar o regime, contra a Síria – e no desejo dos EUA de criar uma entidade curda que abrangesse a fronteira sírio-iraquiana, o que bloquearia a rota terrestre do Irã para o Mediterrâneo.

Se anos de propaganda na mídia levam as pessoas a se irritarem quando sugiro que os EUA conspiram com o ISIS, que considerem então o que os militares dos EUA fizeram quando o ISIS lançou pela primeira vez sua guerra de ocupação territorial no Iraque. O que fizeram? Nada. Absolutamente nada. De fato, os EUA recusaram-se a se envolver, até que o grupo terrorista ameaçou o Iraque curdo. Mesmo assim, os militares dos EUA não fizeram muita coisa a não ser “administrar” as fronteiras territoriais em rápida expansão do Estado Islâmico.

Em 2017, o Exército Árabe Sírio e seus aliados precisaram de apenas três meses para libertar o centro e norte da Síria do ISIS. Naquela época, os EUA permitiram que mais de 3.000 combatentes do Estado Islâmico fugissem de Raqqa, para que pudessem correr para o sul, a fim de deter os avanços do exército sírio contra o ISIS no Rio Eufrates. Por 17 meses, os EUA e seus aliados curdos estiveram na mesma área, com o ISIS, a leste do Eufrates – mas nada fizeram além de fogo contra as forças aliadas sírias que tentavam eliminar os remanescentes do Estado Islâmico sob proteção dos EUA.

Só bem recentemente os norte-americanos eliminaram o ISIS naquele bolsão restante da Síria, em grande parte porque Trump queria a publicidade de ter ‘derrotado’ o grupo terrorista.

Mas os EUA ainda não ‘desmobilizaram’ o ISIS. Número suficiente de terroristas foram libertados pelos EUA, para manter ataques terroristas em toda a região nos próximos anos. A mídia ocidental fez sua parte nesse serviço, incansavelmente ‘alertando’ sobre a iminência de mais e mais ataques pelo ISIS – ‘risco iminente’ que justificaria a presença contínua dos EUA nessas nações.

Patrick Lawrence: Há também a notícia bastante surpreendente de que os EUA estão tentando ativamente evitar que os refugiados sírios no Líbano voltem para casa à medida que a reconstrução avança. E eu entendo que os europeus são cúmplices nisso. Mais uma vez, é difícil interpretar o que fazem esses atores. Em agosto passado, França e Alemanha se reuniram com Rússia e Turquia em Istambul para começar a mapear os planos de reconstrução. Achei que já era ruim o suficiente, que os americanos sequer tivessem aparecido lá. Este último desenvolvimento... Quero dizer, tudo sugere que os EUA não se deixarão deter, aconteça o que acontecer. Tampouco cabe acreditar que se tenham dado por derrotados na Síria. Por favor, comente.

Sharmine Narwani:
Fiz uma extensa pesquisa sobre deslocados internos na Síria há alguns anos e tive a chance de entrevistar grandes ONGs internacionais, agências da ONU e autoridades sírias. Os sírios têm encorajado os refugiados a voltar para a Síria – e nunca quiseram que partissem. Despovoar o país e simular uma “crise humanitária” foi estratégia estrangeira contra a Síria desde o início.

Em 2012, lembro-me de altos funcionários da ONU em Nova York gritando sobre a “crise humanitária” síria, enquanto na Síria, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) – única organização que pode oficialmente declarar crise humanitária pelo mundo – me dizia que não tinha notícia de crise humanitária alguma na Síria: “Há crise humanitária quando um grande número de uma dada população fica sem acesso a assistência médica, comida, água, eletricidade etc. Quando o sistema não pode mais responder às necessidades da população” – disse-me o porta-voz do CICV, em janeiro de 2012, explicando que claramente não era o caso na Síria nos pontos em que os combates eram suspensos, fosse onde fosse.

Os sírios estavam fugindo da violência em suas áreas, e criaram-se corredores seguros para que eles deixassem o país. Mas ninguém cuidou de garantir que os que quisessem voltar pudessem voltar em segurança. O chefe do PNUD [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento] no Líbano me disse que jamais encontrara sequer um, único, que fosse, refugiado sírio que não quisesse retornar à Síria. O que, então, os impedia de voltar?

Não quero parecer irremediavelmente cínica, mas há um modus operandi bem conhecido, na “indústria das ONGs”, pelo qual, para justificar quantidades cada vez maiores de financiamento, as ONGs tendem a inflar as crises. Não é ideia minha: há muito material publicado sobre esse assunto. Refugiados sírios significavam dinheiro e programas. Nesse contexto, não havia incentivo para reverter essa tendência. A posição padrão de muitas ONGs era: “Não devemos incentivar os refugiados a retornar. Devem ser guiados pela própria percepção de segurança”. Ouvimos, claro, exatamente a mesma coisa em referência aos refugiados sírios no Líbano, na Turquia e na Jordânia. Exatamente o contrário, vale lembrar, do que dizem os países europeus, que só pensam em livrar-se de refugiados em geral.

Mas a outra razão pela qual os refugiados não retornavam era que os adversários estrangeiros da Síria não queriam que retornassem. No Líbano, as potências ocidentais basicamente impediram o retorno, durante anos. Até a mídia ocidental sediada em Beirute noticiou que, nas últimas eleições na Síria, milhares de refugiados sírios invadiram a embaixada síria no Líbano, para votar. Não eram sírios “com medo de Assad”, como muitos sugerem.

Patrick Lawrence: E quanto a esta mais recente reviravolta nos eventos?

Por que os EUA, Reino Unido, etc. não querem que os sírios voltem para casa? Porque então a Síria terá a mão-de-obra para reconstruir o país e proteger suas fronteiras. Porque então a “crise” estará claramente superada. Porque sem crise aqueles estados perdem influência sobre os estados vizinhos da Síria e dentro da própria Síria.

É difícil acreditar, porque é muito violento, brutal, muito grosseiro. No sul da Síria, hoje, a situação é terrível, com refugiados e deslocados internos morrendo – literalmente – em péssimas condições no campo de Rukban, ao sul da base militar al-Tanf dos EUA. Os russos estão tentando abrir um “corredor humanitário” para conseguir enviar ajuda e retirar as pessoas, mas os EUA recusam e dificultam a maioria dessas medidas. Os EUA usam aquele campo de refugiados como um ‘escudo’ para proteger a base americana, que lá está para impedir a passagem numa importante rota de fronteira.

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://www.salon.com/2019/04/21/reporter-sharmine-narwani-on-the-secret-history-of-americas-defeat-in-syria/
Publication date of original article: 21/04/2019
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=25914

 

Tags: Guerra da SíriaImperialismo EUASharmine Narwani
 

 
Print this page
Print this page
Send this page
Send this page


 All Tlaxcala pages are protected under Copyleft.