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 11/12/2018 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 EDITORIALS & OP-EDS 
EDITORIALS & OP-EDS / Por que uma sociedade neoliberal não tem futuro
Date of publication at Tlaxcala: 11/11/2018
Original: Why a neoliberal society can’t survive
Translations available: Italiano 

Por que uma sociedade neoliberal não tem futuro

T.J. Coles

Translated by  Victor Reichenheim

 

O ser humano é complexo. Somos, ao mesmo tempo, cooperativos e sectários. Temos uma tendência a cooperar dentro de um mesmo grupo (como, por exemplo, um sindicato) e a competir com outros grupos (como, por exemplo, uma confederação de empresas). Mas sociedades complexas, como a nossa, também nos impelem a cooperar com outros grupos – no bairro, no trabalho etc. Em sistemas sociais, a seleção natural favorece a cooperação. Além do mais, como temos uma inclinação a comportamentos éticos, a cooperação e o compartilhamento são valorizados socialmente. Mas, quando somos forçados a viver num sistema econômico que nos obriga a competir em todos os níveis, a consequência lógica é o declínio ou o colapso social.

 Dogma neoliberal no Século 20

Em “The Individual in Society” (“O Indivíduo na Sociedade”, traduzido para o português), Ludwig von Mises, professor de Friedrich Hayek (o precursor do neoliberalismo moderno), argumentou que, numa sociedade contratual, o empregador está à mercê da máfia, mas que, numa economia de mercado regida pelo autointeresse, “a coordenação das ações autônomas de todos os indivíduos é alcançada através da operacionalização do mercado”. Portanto, nesse mundo fantástico, empregadores podem demitir trabalhadores e substitui-los por mão de obra mais barata sem incorrer no custo social atrelado a sociedades contratuais.

Especialmente após os anos 1970, esse tipo de pensamento começou a permear a cultura dos planejadores de “livre mercado” nos cursos de economia das universidades americanas privadas da Liga Ivy.

Robert Simons, da Harvard Business School (Escola de Negócios de Harvard), observa que hoje a economia é, de longe, a disciplina dominante nos EUA, e que, após formados, muitos alunos levam essa ideologia do autointeresse para dentro da prática laboral em empresas de gestão de ativos e manejo de liquidez, hedge funds, seguradoras etc. Simons critica o que chama de “aceitação universal inquestionável, por parte dos economistas, do autointeresse – incluindo de acionistas, gerentes e empregados – como base conceitual da concepção e da administração de empresas”. Segundo Simons, trabalhadores, assim como gerentes, formam “tribos” guiadas pelo autointeresse cujo intuito é adquirir mais benefícios. “Para atenuar a situação potencialmente caótica” dos direitos trabalhistas, “economistas de mercado tentam canalizar comportamentos errantes usando a teoria de estímulo-resposta”, através de legislações antissíndicais, cortes em serviços sociais e ameaças de terceirização do emprego. Economistas de mercado “elevaram o autointeresse à condição de ideal normativo”.

Contaminando a esquerda 

Em 1988, o então ministro da fazenda do Reino Unido, Nigel Lawson, do Partido Conservador, escreveu que, nos anos 1970, “o capitalismo, baseado no autointeresse, era considerado moralmente inapto” pela maioria dos britânicos. Mas, para Lawson, a intervenção estatal é igualmente imoral. Nas palavras do ex-ministro, “não há nada particularmente ético em governos grandes” (salvo nos casos em que governos grandes resgatam empresas grandes). Mas, para a felicidade dos Conservadores, “a maré ideológica virou”, o que permitiu a volta do Partido Conservador ao poder e a imposição de reformas neoliberais.

Talvez a face mais nefasta do neoliberalismo seja sua impregnação no Partido Trabalhista britânico. A título de ilustração, o neoliberal americano Lawrence Summers (posteriormente secretário do Tesouro dos EUA no governo de Bill Clinton) capacitou o jovem Ed Balls, que, pouco depois, se tornaria conselheiro econômico do futuro ministro da Fazenda Gordon Brown. Brown, na época, ainda um congressista, se reuniu com Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (banco central americano), inaugurando um período de desregulamentação financeira ainda mais acentuada no Reino Unido sob o autodenominado “Novo Partido Trabalhista” (“New Labour”).

Em meados dos anos 2000, pouco antes da eclosão da crise, economistas começaram a enxergar falhas na ideologia, constatando que:

“Soluções de mercado são vistas com bastante desconfiança pela maioria da população. Muitos consumidores se opõem à liberalização comercial, à globalização, à privatização da seguridade social e à desregulamentação dos mercados de energia, às vezes com base em fundamentos racionais, mas, frequentemente, de forma incipiente. Não à toa, os maiores defensores de soluções de mercado estão concentrados em estratos economicamente superiores, e os maiores opositores, em estratos menos bem-sucedidos. O livre arbítrio carrega um apelo moral, mas a fibra moral se fortalece quando não é obstruída pelo autointeresse”.

Em 2008, a economia americana entrou em colapso, levando junto a economia global. Em depoimento na Câmara dos Deputados, Greenspan admitiu ter cometido um erro ao presumir que organizações, particularmente bancos e corporações afins, eram tão guiadas pelo autointeresse que estavam mais bem preparadas para proteger os próprios acionistas e investimentos. Mas autointeresse é autointeresse. Os presidentes e principais executivos das empresas não viram necessidade em honrar com as obrigações junto aos acionistas, muito menos ao público em geral.

As consequências sociais 

As consequências políticas após décadas de neoliberalismo foram a privação de direitos, particularmente durante o período expansivo (anos 1970 até 2008), caracterizado pelo declínio ou pela estagnação da participação eleitoral e pela ascensão do que ficou conhecido como extremismo político, proveniente da crise (2009 até o presente). Mas a ideologia está profundamente enraizada na elite. Assim, mesmo após o inevitável colapso de 2008, o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra (banco central do Reino Unido) continuaram adotando práticas neoliberais através de uma agenda de imposição da austeridade nas populações da Europa e do Reino Unido, respectivamente.

Aproveitando-se da conjuntura, instituições financeiras transnacionais predatórias vêm lucrando com o caos instalado. O colapso da gigante do setor de construção Carillon é um bom exemplo. Diversos hedge funds, alguns baseados nos EUA, lucraram com a ruína da empresa, cuja derrocada contou com a complacência das autoridades.

As consequências sociais do neoliberalismo foram ainda mais desastrosas. A classe média americana vem sofrendo um declínio desde os anos 1970, com um aumento progressivo dos muito pobres e dos muito ricos. Segundo pesquisa publicada na Harvard Business Review, no início dos anos 1980, 49% dos americanos achavam que produtos e serviços tinham deteriorado nos últimos anos. As taxas de suicídio para homens e mulheres continuaram crescendo desde meados dos anos 1990. E, de acordo com um estudo recente, a expectativa de vida caiu em países de renda alta.

No Reino Unido, como consequência da austeridade imposta pelo Partido Conservador, mais de cem mil pessoas perderam a vida num período de dez anos, segundo o BMJ. O sofrimento foi ainda maior em países mais frágeis. Entre 1990 e 2005, os países subsaarianos cujos governos realizaram empréstimos com o FMI e com o Banco Africano de Desenvolvimento em decorrência da adoção de medidas neoliberais de ajuste estrutural sofreram um aumento de 231 e 360 casos de mortalidade materna por 100.000 nascimentos, respectivamente. Outro relatório elaborado pelo BMJ aponta que os países latino-americanos cujo desemprego aumentou 1% entre 1981 e 2010 sofreram “uma deterioração significativa dos indicadores de saúde”, incluindo um aumento da mortalidade infantil de 1,14 por 1.000 nascimentos. No geral, foram milhões de mortes.

Como já registrei em outras ocasiões, os grupos mais vulneráveis – comunidades indígenas que se dedicam à manutenção de modos de vida tradicionais – estão literalmente entrando em extinção conforme a “civilização” avança.

Conclusão 

Se esse modelo, que já dura décadas, continuar se impondo mundo afora, especialmente em países com populações expressivas como a Índia e a China, que estão adotando cada vez mais políticas neoliberais, os atuais problemas de divisionismo político e desmoronamento da infraestrutura parecerão uma dor de cabeça secundária, particularmente diante da redução de recursos e das mudanças climáticas. Se a atual transição cultural caracterizada pela oposição ao neoliberalismo - expressa em todas as vertentes, de movimentos sociais progressistas a greves de trabalhadores - se mantiver e se ampliar, talvez seja possível sobreviver e plantar sementes para um futuro mais igualitário.

 

 





Courtesy of Tlaxcala
Source: http://axisoflogic.com/artman/publish/Article_81711.shtml
Publication date of original article: 25/10/2018
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=24595

 

Tags: NeoliberalismoCapitalismoEconomia politica
 

 
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