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 22/10/2018 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
English  
 EDITORIALS & OP-EDS 
EDITORIALS & OP-EDS / Brasil, à maneira de conto gramsciano
Date of publication at Tlaxcala: 11/10/2018
Original: Brésil, comme un conte gramscien
Translations available: Español  Italiano 

Brasil, à maneira de conto gramsciano

Fausto Giudice Фаусто Джудиче فاوستو جيوديشي

Translated by  Zacimba Gaba

 

Na minha adolescência, há meio século, caso como o de Bolsonaro seria resolvido logo, serviço rápido e limpo: um comando de guerrilha urbana daria cabo dele, uma rajada de balas, ele e guarda-costas, na hora certa – antes do primeiro turno das eleições. Mas estamos no século 21, a esquerda revolucionária ou o que há hoje no lugar dela renunciou faz tempo à “horrível violência”, escolhendo a via eleitoral, democrática, pacífica e toda a correspondente conversa fraca. Ruim, é ver os líderes dizimados à bala um depois do outro, e ter de suportar os golpes, chorando e ‘exigindo’ justiça. Jair Messias Bolsonaro, capitão matador de negros, de viados, de mulheres e da petralhada, por sua vez, escapou de morrer, apesar de esfaqueado por um “desequilibrado”, do qual a história dirá talvez algum dia que foi pago pela vítima para encenar essa magnífica operação de publicidade que pôs o candidato alterofóbico [que tem medo de outros] em posição protegida, para vencer. 

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Acompanhando as peripécias da campanha eleitoral que dilacera o Brasil, veio-me uma vontade de gritar: “Desperta, Antônio! Aquela gente enlouqueceu!” Quem melhor que Gramsci para nos dar meios para decifrar o enigma brasileiro? Aqui vai, pois, uma série de observações inspiradas no grande espetáculo à brasileira, à luz das análises do corcunda sardo.

1 – O Partido dos Trabalhadores (PT) seguiu o princípio de Arquimedes da política politiqueira-eleitoreira: partido de esquerda que chegue ao poder desloca-se para a direita, para virar partido de “centro-esquerda”.

2 – O PT, já com 13 anos de poder, não tocou no sistema oligárquico, se não para lhe fazer cócegas e melhorá-lo. Não rompeu com o produtivismo extrativista, agroindustrial e patrimonial, nem com o manobrismo parlamentar, e meteu-se nas alianças simplesmente monstruosas. Não fez verdadeira reforma agrária que satisfizesse a sede por terra das massas deserdadas. Satisfez-se com distribuir a renda do petróleo de modo um pouco menos desigual. Muito diferente de se aproximar do objetivo final – abolir o trabalho assalariado e o Estado –, tentou converter o Estado em bom papai que zela pela filharada.

3 – O PT entrou completamente na lógica do dinheiro, em todos os níveis. Monetarizou sua relação, seja com as massas populares seja com os círculos oligárquicos de poder. Em resumo, deixou-se corromper pelo sistema.

4 – O PT abandonou qualquer veleidade de educar as massas, deixando essa missão para as monstruosas igrejas evangélicas. Essas, de início, aproveitaram-se de o Vaticano ter destruído a Teologia da Libertação. A Teologia da Libertação propunha-se a entregar aos sacerdotes o papel de intelectuais orgânicos das massas, com o Evangelho numa mão, Marx na outra e uma pistola no bolso (porque... sabe-se lá!). Desaparecidos os teólogos católicos da libertação, abriu-se espaço gigante para mercadores alumiados de evangelhos de todos os tipos. E esses evangélicos, daí por diante, fazem e desfazem carreiras de políticos. Bolsonaro, adepto da Igreja Universal do Reino de Deus – nada mais, nada menos – é o exemplo mais bem acabado de “cristofascismo” do qual falava Dorothee Sölle, teóloga alemã, nos anos 1970.

Diferentes dos Guerrilheiros de Cristo-Rei espanhóis dos anos do franquismo, ou dos Cristeros mexicanos dos anos 1920-1930, que eram católicos, os cristofascistas brasileiros hoje são evangélicos em modo gringo-tropical-ostentação, adoradores do Mammon. O sucesso deles junto aos deserdados da terra é análogo ao dos filhos de guetos que enriquecem nas incontáveis labutas dos tráficos ilegais, para poder ostentar suas Ferraris e seus colares de puro ouro. Com o que fazem babar os garotos do gueto, que passam a só pensar numa coisa: seguir as pegadas do boss.

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5 – Mas, mesmo com muita água na sua cachaça, o PT continuou a ameaçar o sistema, que resolveu livrar-se dele, como já havia feito em 1964 com seus antecessores do movimento operário e progressista, partidarios de Getúlio ou Jango. Então, o golpe de Estado foi golpe militar, e os generais, coronéis e almirantes precisaram de 20 anos para completar a faxina de seus adversários políticos e sociais, antes de trocarem a farda pelo paletó-e-gravata e “restaurar a democracia”, mas conservando o poder econômico, partilhado por oligarcas velhos e jovens.

6 – O PT, brotado da classe operária industrial da região do ABC paulista, conseguiu abrir-se para as classes médias brancas urbanas, mas não para as massas rurais, apesar do apoio que sempre recebeu do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), nem para as massas urbanas deserdadas, principalmente negras e mestiças, das favelas. Essas massas permaneceram em grande parte sob o controle de gangues armadas – como a Milícia do Rio de Janeiro, um esquadrão da morte de mil braços, que ocupou o lugar do Estado, pelo modelo do Cartel de Medellín (Pablo Escobar construiu 5.000 “alojamentos sociais”, o que lhe garantiu popularidade inabalável) – e de igrejas de iluminados por Deus e outros Gladiadores do Altar, que se auto-outorgam a tarefa de combater contra cultos de matriz africana, que eles veem como perfeitas manifestações do diabo (o qual, como todos sabemos, é negro e tem rabo bífido).

7 – O PT manteve-se partido de brancos, num país onde um quarto da população é negra ou mestiça. E partido de homens, que chegou a negar às mulheres o direito de praticar aborto, de medo de perder votos dos iluminados de Deus, católicos e evangélicos.

8 – Bolsonaro, sob a aparência de vacuidade e nulidade, tem programa muito claro, que lhe foi ditado por quem manda. Esse programa deveria encantar os marxistas, dado que visa a dar razão a Engels: “o Estado é um bando de gente armada”. Fim portanto do Estado-papai-que-cuida-dos-filhos, do PT, aí está de volta o Estado bandido-pistoleiro em todo seu esplendor. Exceto o cuidado com restaurar o monopólio estatal da violência, todo o resto deve ser ‘terceirizado’ – em inglês “outsourced” –, entregue ao comando dos Chicago Boys. Aplicar-se-ão as boas velhas receitas friedmano-thatchero-reagono-pinochetistas atualizadas para a moda do dia, como já praticamente em todo o mundo, incluindo o subcontinente.

9 – O que o PT deveria e poderia fazer para vencer o 2º turno das eleições, dia 28 de outubro? Os analistas brasileiros de esquerda são quase unânimes: “deve abrir-se para o centro” – em outras palavras, ‘direitizar-se’ ainda mais. Pela minha avaliação, essa medida só acelerará o suicídio político dos petistas brasileiros. A experiência universal mostra que os eleitores preferem sempre o original, às cópias. As águas do Jordão nas quais o partido poderia renascer, são onde ainda sobrevive o Brasil profundo, que aprendemos a amar, com Zumbi dos Palmares, Besouro Manganga, Jorge Amado e sua Gabriela, Glauber Rocha e seu Antônio das Mortes, Luis Carlos Prestes e sua Coluna, Carlos Marighella e sua guerrilha urbana, Marielle Franco e seu sorriso que desarma.

10 – No imediato, portanto, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila devem falar aos 30 milhões de pobres que se abstiveram de votar no 1º turno, para convencê-los a agir, dia 28 de outubro, se não quiserem afundar ainda mais no desespero. Em vez de caminhar para a direita, o PT deve, numa palavra, descer da escada e mergulhar no magma derretido das paixões populares.

Imagens: Grafitti, em Túnis, do artista de rua Zoo Project (pseudônimo de Bilal Berreni, 1990-2013)





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://bastayekfi.wordpress.com/2018/10/10/bresil-comme-un-conte-gramscien/
Publication date of original article: 10/10/2018
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=24289

 

Tags: PTEleições brasileiras 2018Haddad-BolsonaroIURDBrasil
 

 
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