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 24/10/2017 Tlaxcala, the international network of translators for linguistic diversity Tlaxcala's Manifesto  
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 EUROPE 
EUROPE / Tempo de mudar na política francesa
Date of publication at Tlaxcala: 06/05/2017
Original: Times of change for French politics
Translations available: Русский 

Tempo de mudar na política francesa

Jacques Sapir Жак Сапир

Translated by  Coletivo de tradutores Vila Vudu

 

Os resultados do primeiro turno da eleição presidencial na França são surpreendentes, com Le Pen e Macron eleitos para o segundo turno. Mas dois outros candidatos, Fillon (pelo centro-direita) e Mélenchon (pela esquerda radical) chegaram muito perto. A França saltou, de um sistema bipartidário, para uma nova era quadripartidária. E também chama a atenção a derrota dos partidos tradicionais, sejam os "Republicains" seja o Partido Socialista, nenhum dos quais chegou ao segundo turno. Outro ponto importante foi o rápido crescimento de Emmanuel Macron, o qual, com apoio de grande parte dos mídias, do establishment dos grandes bancos e de uma grande parte do partido socialista, saiu do nada para o primeiro lugar do primeiro turno. (...)

A eleição presidencial na França em 2017 aconteceu de fato num contexto político inesperado, com quatro candidatos com condições de chegarem ao segundo turno. Mas, se o contexto foi inesperado, pelo menos para os analistas políticos franceses, o mesmo não se pode dizer da situação econômica e política da França. A deterioração da situação do país ao longo dos últimos dez anos é visível. O número de desempregados cresceu consistentemente, ao mesmo tempo em que o euro (e a União Monetária Europeia) não cumpria tudo que prometera. Começada sob a presidência de Nicolas Sarkozy, a deterioração prosseguiu, e até acelerou, sob a presidência de François Hollande.

Os resultados do governo de Hollande são, pode-se dizer, catastróficos. É o que explica que seja o presidente, em toda a história, que alcançou as avaliações mais baixas. Sim. O primeiro turno da eleição presidencial foi o momento que a maioria do povo francês escolheu para dizer, o mais alto possível, que está insatisfeito com a situação.

Os homens do desemprego e do passado

Nessa campanha eleitoral sem precedentes emergiu uma inesperada "camarilha dos quatro". Se dois meses antes das eleições todos tinham certeza de confronto final entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron, a situação real mostrou uma diferença radical.

François Fillon perdeu uma eleição que não podia perder. Viu-se apanhado pelas consequências morais dos vários escândalos que estouraram sobre ele. A questão nem é tanto a dimensão legal das acusações (que é assunto para os órgãos judiciários) mas a dimensão moral dos casos, que abalam definitivamente a imagem desse candidato como homem de altos padrões morais e de integridade. Impossível esquecer que Fillon fez dessa sua suposta integridade a mais marcada diferença a separá-lo de Nicolas Sarkozy, ao qual serviu como primeiro-ministro.

O impacto foi enorme, porque esse candidato era apóstolo devoto de uma política de rigor extremo e prega cortes dramáticos nos serviços públicos. Fala da dívida pública, mas a política que Fillon pregava pode gerar recessão massiva, a qual por sua vez só fará aumentar o tal déficit. Vale relembrar, que a política que Fillon pregava – e muitos tendem esquecer – foi aplicada de 2011 até a eleição presidencial de 2012. Causou aumento instantâneo de 300 mil no número de desempregados e, considerando que esses resultados foram sentidos até o início de 2013, aquela política criou, de fato, meio milhão de desempregados. Pode-se imaginar as consequências dramáticas que resultariam se o 'programa' de François Fillon fosse posto em prática. Mesmo assim, os apoiadores de Fillon sentiram-se traídos pelo "sistema" e pelos veículos e empresas de mídia. Apesar de Fillon ter declarado que votará em Emmanuel Macron no segundo turno, ninguém pode prever como se comportará parte significativa dos que votaram nele.

Ao mesmo tempo, Emmanuel Macron mostrou ser o candidato capaz de arregimentar todo o tipo de gente, de um ex-líder da esquerda (Daniel Cohn-Bendit) a um ex-primeiro-ministro de Jacques Chirac (de Villepin).

Macron concentrou em torno de seu nome todos os candidatos em perigo, desesperados para se salvar do naufrágio do governo de François Hollande, de François Bayrou (do centro da Democracia Cristã), até socialistas bem conhecidos como Manuel Valls, ex-primeiro-ministro de Hollande. A candidatura de Macron é obra, em grande parte, de grupo importante das empresas francesas de mídia.

Os eleitores parecem não se dar conta da vacuidade e, simultaneamente, da natureza extremamente reacionária do projeto social de Macron.

Emmanuel Macron, por trás de linguagem falsamente moderna, está de fato pregando um retorno ao início do século 19, uma volta ao "sistema doméstico" da Revolução Industrial. Chama a atenção e deve-se destacar que o candidato que nunca para de exaltar as virtudes do que ele chama de "economia digital", é, de fato, passadista ativo.

Mas Emmanuel Macron também é homem do passado num segundo sentido. Se se autoapresenta como um "novo homem" – o que já é difícil de engolir – como candidato "antissistema", é preciso não esquecer que foi homem de confiança do mesmo 'sistema, seja como conselheiro de François Hollande ou como ministro de Manuel Valls, corresponsável pela política desastrosa do governo que está chegando ao fim. Essa foi a política que, de fevereiro de 2013 até o início de 2017, acrescentou mais de 400 mil desempregados ao número já impressionante que a dupla Sarkozy-Fillon deixara de herança.

Os dois, François Fillon e Emmanuel Macron têm defeitos que contaminam profundamente os respectivos programas. Mas, promovido fortemente pelas mídia-empresas, Emmanuel Macron tem conseguido, até aqui, fazer esquecer tudo aquilo.

Candidatos para o futuro?

Marine Le Pen contou com os votos de eleitorado extremamente estável, composto de ampla maioria de pessoas já convencidas. Desafiou todas as abordagem e outros recursos pirotécnicos que visavam a defini-la como "extrema direita" e, até – acusadores que não parecem temer nem o máximo do ridículo –, como "fascista". Por mais que algumas franjas extremistas possam também votar nela, a realidade é muito diferente. A candidatura de Marinne Le Pen corresponde em muito grande parte ao que o geógrafo Christophe Guilluy chamou de "França periférica" (como se vê na distribuição geográfica dos votos).

Quem ganhou o quê no primeiro turno das eleições presidenciais?

Nem toda essa "França periférica" vota em Marine Le Pen, e há também entre seus eleitores representantes dos distritos ricos, mas é incontestável que grande parte dos deixados para trás pelas políticas de governo dos presidentes e gabinetes dos últimos anos – as vítimas da "globalização", votaram nela.

Com Marine Le Pen estamos diante de um movimento popular que se desenvolve tanto mais rapidamente quanto mais rapidamente fracassa o atual sistema político. Chama a atenção também que esse movimento assumiu quase completamente os códigos da democracia política e é marcado por nível muito baixo de violência, muito abaixo do que se vê em alguns pequenos partidos e grupos. Essa é uma das razões pelas quais as acusações de "fascismo" soam ridiculamente descabidas.

Como em qualquer movimento popular, esse também tem aspectos que se podem descrever como "de direita" e outros que se podem descrever como "de esquerda". Essa é uma das contradições clássicas em todos os movimentos populares.

Mas a "surpresa" dessa eleição foi o rápido crescimento, nas últimas semanas antes do primeiro turno, de Jean-Luc Mélenchon, que impediu que o candidato do Partido Socialista voltasse ao nada de antes, e o empurrou para o mais baixo índice de qualquer candidato do Partido Socialista em todos os tempos (em torno de 7%). Aqui também, estamos diante de um movimento que reuniu os excluídos e os derrotados na guerra pela globalização. Aqui também, estamos diante de movimento claramente popular. Como em todos os movimentos populares, há aí uma dimensão carismática, e a figura de Jean-Luc Mélenchon, como a de Marine Le Pen, fascina muitos de seus possíveis eleitores. A surpresa, pois, dessa eleição, é que Mélenchon tenha alcançado os primeiros três candidatos.

Esse grande feito é resultado de campanha muito corretamente orientada. Mesmo sem chegar ao segundo turno, com número de votos três vezes maior que o candidato do Partido Socialista, Mélenchon tem todas as chances de emergir, passadas as eleições, como principal figura da esquerda francesa.

Esses dois candidatos – Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon – sem dúvida representaram uma modalidade de futuro para a França.

Candidatos em paisagem devastada

Benoît Hamon, candidato oficial do Partido Socialista, continuou sua descida ao abismo. Normal e esperável, num certo sentido, dado que Hamon é o verdadeiro herdeiro do Partido Socialista fundado no início dos anos 1970 e hoje completamente desacreditado. Seu programa é apenas a sentença de morte do partido que um dia quis "fazer política de outro modo", mas que naufragou no pântano da corrupção, traições, cobiça pessoal e ambição de todo tipo. Imprensado entre, de um lado Emmanuel Macron, a favor do qual líderes do Partido Socialista (de Manuel Valls a Vaillant) fizeram campanha, e Jean-Luc Mélenchon, do outro lado, a campanha de Hamon esvaziou-se gradualmente. Praticamente ninguém ouviu suas propostas políticas.

O fato de no desespero dos últimos dias de campanha Hamon ter-se posto a caluniar Jean-Luc Mélenchon – tipo de ataque que é desonra para Hamon –, é prova do descrédito total em que caiu. Aqueles ataques também levaram os eleitores de Hamon a questionar o significado e a natureza da própria candidatura dele: que benefício trouxeram ao próprio Benedict Hamon?

Reduzido a simples candidatura para constar, significará também o fim do ciclo político iniciado com a eleição de François Mitterrand. Com isso, o círculo se completa, e o Partido Socialista terminará seus dias na mesma lata do lixo da História onde terminou a Section Française de l’Internationale Ouvrière (SFIO) – sua predecessora funcional –, ao final da calamitosa campanha para a presidência, de Gaston Deferre e Pierre Mendès-França em 1969, campanha que terminou com Deferre com menos que 6% dos votos, quase a mesma percentagem de Hamon, dia 23/4/2017.

Nicolas Dupont-Aignan conseguiu fazer-se ouvir e com 4,7% não fez papel ridículo. Seu discurso é firmemente soberanista, e contrasta com a quase eterna troca de pé de François Fillon, quanto a esse quesito. É significativo também que François Fillon o tenha atacado doentiamente (na verdade, cometeu crime de calúnia, no debate do dia 4 de abril). São ataques que mostram o desespero de François Fillon. Reforça a ideia de que Nicolas Dupont-Aignan passou a ser ameaça real para o candidato dos "Republicanos". Pode-se supor que Fillon tema que a candidatura de Nicolas Dupont-Aignan tenha potencial para reunir em torno dela uma parte dos eleitores cansados dos escândalos que cercam o aspirante dos "Republicanos", tanto quanto desgostam de sua longa história a serviço do sarkozysmo. Nicolas Dupont-Aignan, se conseguir atrair essa parte do eleitorado da ex-UMP que entende que honestidade pessoal e a honra do candidato são itens a considerar, também integra o grupo do futuro, contra o passado.

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Vitória e contradições dos soberanistas

Aqui temos de voltar às contradições presentes no programa de Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon. Porque há contradições nos dois casos, e é preciso avaliar a importância delas.

Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon representam duas versões do programa soberanista, com certeza mais 'visível' e afirmado por Marine Le Pen do que por Jean-Luc Mélenchon.

Importante observar que esses dois candidatos representam, com as contribuições de Dupont-Aignan, mas também dos candidatos de dois partidos menores, Asselineau e Cheminade, um programa soberanista que – e essa é a grande revelação da eleição presidencial de 2017 – está hoje se afirmando como culturalmente dominante.

O resultado total desses cinco candidatos já ultrapassa os 47% e até o próprio Macron teve de usar duas vezes a palavra "patriotas" na sua fala do domingo, 23 de abril. Esse é fato extremamente importante, para quem queira compreender a França hoje.

Nunca antes a União Europeia esteve tão desacreditada em meses recentes. Ainda que uma grande maioria de franceses prefiram o euro, a voltar ao franco, o fato de que a mesma maioria de franceses digam que estão desapontados com a União Europeia sugere que a preferência pelo euro possa ser muito rapidamente revertida. Deve-se dizer também quem, mesmo que Marine Le Pen venha a ser derrotada por Macron no domingo, 7/5, ela já reconfigurou, em certa medida, não só a agenda política, mas também o vocabulário político. É uma vitória cultural, grande sucesso.

Mas nem um, nem Le Pen nem Mélenchon conseguiram descrever claramente e efetivamente o processo pelo qual pensam implantar essa parte dos respectivos programas, se eleitos.  Isso provavelmente conteve a ascensão de Mélenchon, quando por muito pouco não ultrapassou François Fillon. Quanto à Le Pen, deve esclarecer sua posição, ou sofrerá em todos os debates contra Emmanuel Macron.

Escolher o futuro

Seja como for, deve-se relembrar um ponto essencial. Nessa eleição temos uma luta entre o passado e o futuro. Muito claramente, François Fillon, Emmanuel Macron e num certo sentido Benoît Hamon encarnaram o passado. Encarnam também a passividade de uma política perseguida há uma década. Fato é que François Fillon e Emmanuel Macron representam duas estratégias que já fracassaram, uma aplicada por Nicolas Sarkozy, a outra, por François Hollande – e ambas agravaram consideravelmente o desemprego na França. Essas duas estratégias são amplamente responsáveis pela desindustrialização pela qual a França passa. Benoît Hamon, por seu lado, nada ofereceu que sugerisse que estaria disposto a romper com os erros de seu mandato dramático, seja na economia, ou no campo da segurança. O ataque em Paris na 5ª-feira 20 de abril e, antes, em Estocolmo, obriga a assumir que ninguém pode fingir que não vê o perigo que é, em todo o mundo, o islamismo radical. Nesse específico ponto, ambos, Emmanuel Macron e Benoît Hamon deixam-se ver como fracos.

Esses dois candidatos nos propõem, mais ou menos, que continuemos a associar nosso futuro ao futuro de uma União Europeia, e a uma eurozona, duas vias que já mostraram o quanto mal podem causar e causam à economia francesa. Suas propostas para 'reformar' a União Europeia e a eurozona são, no mínimo vagas e sem consistência; no máximo, são inexistentes.

Por mais que jornais e jornalistas franceses insistam em apresentar Macron como homem de seu tempo, a verdade é que é homem do passado, um dos principais responsáveis pela horrenda política econômica do presidente François Hollande. O programa de Macron não dá qualquer pista de como ele realmente combaterá a catástrofe econômica na qual a França vive já há dez anos. A capacidade dele para negociar com a Alemanha de Merkel, se existe, não é óbvia, sequer visível. Provavelmente prenderá a França outra vez no mesmo beco sem saída de depressão e agonia em que o país viveu durante o mandato de Hollande. As consequências sociais e econômicas serão catastróficas.

O segundo turno mostrará se os eleitores franceses preferem manter e repetir as soluções fracassadas, mas conhecidas, ou se escolherão soluções mais promissoras, mas com certeza nunca tentadas.

 

 

Marcus Gottfried, Alemanha





Courtesy of Tlaxcala
Source: https://russeurope.hypotheses.org/5929
Publication date of original article: 24/04/2017
URL of this page : http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=20429

 

Tags: Eleições presidenciais FrançaMacronLe PenMélenchonFrançaUEropa
 

 
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